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ARAXÁ CACHAÇA FESTIVAL
Postado em: 23/07/2026 - 11:30 Última atualização: 23/07/2026
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A mesa de bar está de luto

por Tarcisio Cardoso (convidado especial de Luis Borges)

Uma das alternativas para a evasão do stress é a mesa de bar, vicissitude de quem busca minimizar os percalços da semana, em troca de paz e tranquilidade, quando do seu término. O bar, de modo natural, sem a ciência da psicologia, faculta momentos de êxtase e até hilaridade, para quem busca a paz e dar um tempo aos problemas do cotidiano. No bar você fala, canta, gargalha, ouve, discute, afirma, contesta, concorda, faz amigos, fica sabendo, é servido e até pode beber! Com tira gostos!

Neste final de semana, um destes recantos de confraternização se emudeceu e se revestiu de melancolia, furtando do seu ambiente toda a alegria que lhe contagiava. O incomparável Betão, mentor e senhor de seu negócio, buscou a eternidade e se encantou, conforme Guimarães Rosa. Quem sabe o céu está carente, necessitando de um bar numa esquina de nuvens, da cidade eterna. Tenho certeza que Betão levará ainda mais claridade para a casa de Cristo e o inesquecível Joaquim de Castro estará mais feliz!


Por algumas décadas, quando ainda mais jovem, sem as macacoas da idade, que ora pesam meu viver, tive o privilégio de frequentar o seu bar, melhor dizer nas palavras do Bené, outro “barmeiro”, boteco, que me proporcionou momentos memoráveis, gravados no meu baú de histórias, que hoje só possíveis ao sonhar! Como eu me fartava ouvindo suas histórias, quando aquele contador despejava casos, com merecido orgulho, de seu tempo em São Paulo, ao lado do Zé Domingos, Paulo Vanzolin, Adauto Santos, dentre outros, seus amigos importantes! Betão detinha memória privilegiada e dava notícias de fatos e pessoas, acontecidos há longa data derradeira, as vezes esquecidos no decorrer da vida de nossa cidade. Queria saber de coisas do passado? Era só perguntar ao Betão!


Até o visual de seu bar é diferente, incomum, de tudo o que se espera da normalidade. Ao invés de um ambiente limpo, como os demais, é decorado com quinquilharias originarias de todas espécies, onde não se vê parede, mas caixa de marimbondo, casa de sabiá, gaiolas, relógios velhos, enfim um acervo de milhares de antiguidades empoeiradas, adornadas com teias de aranhas! Porém, a cerveja é mofada de tão gelada, a cachaça pura de barril e o tira gosto, um pitéu! Betão franqueava a cozinha aos fregueses, cozinheiros, mais achegados, sem reserva. O amigo Marquinho, colaborador de muitas décadas, fiel escudeiro, é quem serve aos fregueses. Betão, tão somente, dava ares cult, intelectual e envolvente àquela atmosfera de contentamento!


Betão também tinha uma aguçada visão da vida e sua língua ferina, amolada no dia a dia do convívio no bar, ouvindo e filosofando, que nos deixou casos hilários, dignos de um gargalhar incontido e até o registro literário! Apenas para ilustrar. De certa feita, alguém no fundo do bar, bem afastado do Betão, sempre sentado detrás do balcão, ao lado da porta, reclamou que a cerveja estava quente, ou seja, menos gelada, incomum naquela freguesia. Betão, com naturalidade, sem alarde e indiferente, arrematou: “está quente, então sopra”! De outra vez, para serenar uma discussão dentre fregueses, se cerveja era melhor com limão ou natural, saiu-se com esta, para deleite de todos: “se cerveja fosse boa com limão, já viria de fábrica”.

Este era o inolvidável Betão, que nos deixou na saudade, de mãos vazias, com o coração desolado e olhos em poças, entumecidos – parafraseando Rolando Boldrin: “partiu fora do combinado”!

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