Mãe atípica é uma expressão que tem se tornado cada vez mais comum nas discussões sobre inclusão
Em Araxá, Cintia Sílva, 51 anos, solteira, tem vivido uma jornada de amor, resiliência e dedicação ao seu filho de cinco anos, Lorenzo Gabriel, que enfrentou graves desafios de saúde dias após o nascimento. Sua história de superação e os obstáculos do cotidiano de uma mãe atípica são comoventes e inspiradoras. Cintia, que é avó de Lourenzo, conta à reportagem que assumiu o papel de mãe após a saída do neto do hospital, após complicações causadas pela hidrocefalia. Na época, sua filha, ainda menor de idade, não pôde cuidar de Lourenço e, em seguida, declarou não ter condições de ficar com o filho. Foi assim que Cíntia iniciou sua trajetória como mãe de Lorenzo.
Atento e com sorriso no rosto, Lorenzo é uma craiança que se desenvolve a cada dia. Foto: Alex Xexéu
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Lourenço nasceu saudável e sem sinais de complicações. Mas, aos 40 dias de vida, uma simples otite levou a uma série de problemas. A infecção causou hidrocefalia, que gerou coágulos no cérebro e exigiu uma intervenção médica urgente. A condição de Lourenço não podia ser tratada em Araxá, o que levou Cintia e o pequeno Lorenzo a buscar atendimento em Uberaba.
Foram meses de cirurgias e drenagens no cérebro, com Lorenzo passando por sete procedimentos. “Ele estava entre a vida e a morte, mas eu nunca perdi a fé. Coloquei ele nas mãos de Deus e acreditei que ele iria vencer”, conta Cíntia, que nunca imaginou que o filho, com apenas 40 dias, sobreviveria. Hoje, Lorenzo está com 5 anos e, apesar de todas as limitações físicas e motoras, é uma criança cheia de vida, alegria e força.
Mãe atípica é uma expressão que se refere a mulheres que têm filhos com algum tipo de deficiência, síndrome rara ou outra condição que afete o desenvolvimento da criança.
Ser uma mãe atípica exige muito mais do que amor e dedicação. Cintia compartilha como sua rotina é voltada exclusivamente para as necessidades de Lorenzo. Ele é dependente de cuidados constantes, como medicação, fisioterapia e sessões de fonoaudiologia. O dia de Cíntia começa cedo, com a administração dos remédios e a preparação para mais um dia de tratamentos e atividades.
“A minha vida é dedicada 100% ao Lourenço. Ele não anda, não fala corretamente, tem uma visão limitada, e ainda usa fraldas. Ele depende de mim para tudo. Não consigo deixar ele sozinho em nenhum momento”, explica Cintia.
Além de se dedicar aos cuidados médicos, ela enfrenta um grande desafio emocional. A mãe atípica precisa lidar com o fato de que seu filho ainda não pode realizar muitas atividades básicas sozinhos, como se alimentar ou tomar banho. A luta diária para que Lourenço ganhe mais autonomia é constante.
Cíntia também compartilha as dificuldades financeiras e emocionais que enfrenta. Ela depende de auxílios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e ajuda da comunidade para arcar com as despesas, que são muitas. A medicação, os tratamentos e as necessidades diárias de Lourenço exigem um grande esforço, já que o benefício é insuficiente para cobrir todos os custos.

Lorenzo é uma criança que vai a escola, frequenta a Equoterapia e realiza suas atividades para desenvolver cada vez mais. Foto: Arquivo Pessoal
“Eu sei que é difícil, mas a minha fé e a força do Lourenço me ajudam a seguir em frente. Quando ele estava em estado grave, eu nunca pensei que ele não iria sobreviver. Ele é um milagre, e a cada dia que ele supera seus limites, meu coração se enche de orgulho”, afirma Cintia.
Apesar de todas as dificuldades, Cintia tem o apoio de alguns profissionais de saúde e da comunidade. Lourenço tem o suporte de médicos especialistas em Uberaba e frequenta uma escola, onde uma professora de apoio tem ajudado bastante. Cintia também ressaltou o apoio que recebeu durante uma ação do Dia das Crianças, promovida pela associação de mães atípicas, que proporcionou pequenos presentes para os filhos de mães que enfrentam realidades similares à dela.

Lorenzo com sua professora e amigos na escola. Foto: Arquivo Pessoal
No entanto, Cintia acredita que mais precisa ser feito pela sociedade e pelos governos para apoiar as mães e as crianças atípicas. “Precisamos de mais profissionais capacitados na área da saúde para crianças com deficiências. Aqui em Araxá, não há médicos especializados para esse tipo de deficiência. Eu preciso viajar para Uberaba para conseguir o atendimento adequado. Eu espero que, com as novas iniciativas, como o hospital que está sendo planejado, a situação melhore para as crianças de nossa cidade”, diz Cíntia, que luta por melhores condições de atendimento e mais acesso a profissionais especializados.
Apesar de todas as dificuldades, Lorenzo continua a mostrar a todos que é uma criança feliz, cheia de vida e gratidão. Ele adora conversar, é muito sorridente e, mesmo com limitações, se adapta às atividades escolares e terapias, como a equoterapia, que ele adora.
Cíntia finaliza com um agradecimento: “Lorenzo é um milagre, e a cada sorriso dele, eu vejo que vale a pena todo o esforço. Acredito que, com muito amor e perseverança, ele vai continuar superando suas limitações. Ele é uma criança abençoada por Deus e um exemplo de luta e superação.”