Reunião com quitandeiras e pesquisadores destaca tradição, geração de renda e preservação de saberes históricos
Araxá foi palco de uma roda de conversa que reuniu quitandeiras do município, representantes do setor de turismo e pesquisadores envolvidos em um estudo que busca valorizar o ofício das quitandeiras como patrimônio cultural do Brasil. O encontro integra a etapa de pesquisa de campo para a construção de um dossiê sobre as quitandas tradicionais. Todo o trabalho é conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG).
Segundo a secretária municipal de Turismo, Alda Sanda Barbosa Marques, a iniciativa, realizada nesta terça-feira (27), fortalece não apenas a cultura local, mas também o turismo gastronômico da cidade.
“É um momento muito importante, porque é uma roda de conversas com as quitandeiras de Araxá, onde elas podem contar suas histórias e enriquecer esse projeto de pesquisa. Agora é a fase de campo, com os pesquisadores conhecendo de perto as quitandas daqui”, destacou.
A secretária ressalta ainda que o trabalho pode ampliar a visibilidade das produtoras e impulsionar o setor. “Isso fortalece a nossa gastronomia e o turismo de maneira geral. É uma forma de dar uma visibilidade muito grande às quitandeiras. A gente já tem o reconhecimento do queijo, e agora pode ser a vez das quitandas”, afirmou.
A professora universitária e antropóloga Carolina Cadima Fernandes Nazareth, pesquisadora do projeto, explicou que o estudo inicialmente estava concentrado na região de Congonhas, mas foi ampliado após a constatação da importância das quitandas em diversas partes de Minas Gerais. “Quando começamos a selecionar as cidades, Araxá não poderia ficar de fora. O município está no início do Circuito da Canastra, em uma região reconhecida pelos queijos, pelos doces e também pelas próprias quitandas”, explicou.
Além de Araxá, o levantamento inclui municípios como Patrocínio e Patos de Minas, no Alto Paranaíba, e Uberlândia, no Triângulo Mineiro, além de outras regiões mineiras.
O principal objetivo da pesquisa é reunir informações para a elaboração de um dossiê que fundamentará o pedido de registro do ofício das quitandeiras como patrimônio cultural do Brasil. O reconhecimento abrange quitandeiras de Minas Gerais e também de algumas regiões de Goiás.


Quitandeiras de Araxá compartilham histórias e receitas em pesquisa de valorização cultural. Fotos: Caio César/Portal Imbiara
De acordo com a pesquisadora, o estudo vai além da culinária e aborda aspectos sociais e históricos. “O Iphan percebeu que as quitandas são fundamentais para a manutenção da vida de muitas mulheres. A maioria das quitandeiras é formada por mulheres que, muitas vezes, são chefes de família”, ressaltou.
Ela também destaca a transmissão de conhecimentos entre gerações. “Essas receitas e modos de fazer foram aprendidos com avós e pais e fazem parte de um saber tradicional. É um ofício que corre o risco de se perder com a modernização e a industrialização da alimentação.”
A pesquisa também evidencia a ligação histórica das quitandas com o período escravocrata. “Mulheres negras, forras ou ainda escravizadas utilizavam a produção e venda de quitandas como forma de sustento e até para comprar cartas de alforria”, explicou.
A equipe pretende concluir as reuniões de campo até o fim de março. A previsão é que o dossiê fique pronto até agosto. Depois disso, o material será analisado pelo Iphan, com expectativa de avaliação até dezembro.


Sabores típicos de Araxá entram em estudo que pode render reconhecimento cultural nacional. Fotos: Caio César/Portal Imbiara
Araxá integra a quarta das cinco regiões previstas no roteiro da pesquisa. A última etapa deve ocorrer na região de São João del-Rei, abrangendo áreas da Zona da Mata e da região central de Minas Gerais.
Se aprovado, o reconhecimento poderá representar um marco para a preservação da tradição das quitandas e para o fortalecimento da identidade cultural e turística de cidades como Araxá.