Especialista detalha crescimento dos casos, impacto nas famílias e anuncia pesquisa inédita para mapear a saúde ment
O vício em jogos — especialmente apostas e jogos online — já é tratado como questão de saúde pública no Brasil. Em Araxá, o tema ganhou destaque na última quinta-feira (19), durante entrevista da referência técnica em saúde mental do município, Alessandra Silva, ao programa da Rádio Imbiara.
Ao longo da conversa, marcada por forte participação dos ouvintes, Alessandra fez um alerta direto: quando o comportamento começa a comprometer a rotina, é hora de procurar ajuda.
“Agora, se estiver atrapalhando a pessoa dormir, atrapalhando a pessoa se alimentar, ela tem que procurar ajuda. Tem que ver se essa ansiedade está atrapalhando o cotidiano, a normalidade. Se tiver, procure ajuda.”
Crescimento nacional e reflexos locais
O cenário em Araxá acompanha um movimento observado em todo o Brasil. Dados do Ministério da Saúde indicam aumento na procura por atendimento relacionado ao transtorno do jogo, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como doença. A popularização das apostas esportivas online ampliou o acesso e, consequentemente, os casos de comportamento compulsivo.
Em Minas Gerais, a rede pública também já identifica maior demanda por atendimentos ligados a vícios comportamentais. Mas, segundo Alessandra, mais importante do que os números nacionais é compreender o que acontece dentro do município. “Hoje a gente atende as demandas que chegam até nós — e muitas não chegam. Já atendemos pessoas que deram entrada na UPA por tentativa de autoextermínio e nunca tinham passado pela rede de saúde mental.”
Ela destaca que o vício não escolhe classe social. “É um tipo de situação que pega qualquer nível de pessoa. Não é porque é um empresário da cidade ou um morador de rua que vai ter tratamento diferenciado. A gente trata todos com o maior respeito e humanização possível.”
Quando o jogo deixa de ser lazer
Durante a entrevista, diversos ouvintes relataram casos pessoais e familiares. Uma ouvinte contou que joga baralho online diariamente e fica agressiva quando perde. A resposta foi direta:“Atende. Porque aí já está demonstrando uma compulsão e uma mudança de comportamento.”
Alessandra explicou que jogar eventualmente pode ser lazer, mas o limite é claro. “Às vezes pode ser desestressante, no final de um dia de trabalho jogar um baralho, um truco online. Mas até um certo momento que não atrapalha o restante.”
Quando surgem irritação excessiva, mentiras para encobrir perdas, compras incompatíveis com a renda ou isolamento social, é sinal de alerta. “Não é vergonha reconhecer que tem uma doença. Tudo que é doença é tratável. Ainda está em tempo de procurar ajuda.” Ela reforça que o problema tende a crescer se não houver intervenção. “A gente sabe que é uma bola de neve e que quanto mais deixar, pior vai ficar.”
Excesso de telas preocupa após a pandemia
Outro ponto destacado foi o aumento de casos após a pandemia de Covid-19. “Depois do Covid, piorou muito esses casos. Porque o celular basta. O convívio das pessoas não está sendo tão valorizado.” Segundo ela, o uso excessivo de telas tem impactado inclusive crianças. “Hoje em dia a criança nasce e os pais já dão um celular. Antes era chupeta, hoje é o celular. Mas o excesso de telas tem causado muito transtorno mental.”
Ela defende equilíbrio e retomada do convívio social. “É tentar diminuir um pouco as telas e trabalhar um convívio. Fazer uma atividade física, uma caminhada, uma viagem. Deixar o celular de lado pelo menos em algum momento do dia.”
Como funciona o tratamento em Araxá
A rede municipal oferece atendimento gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O CAPS AD (Álcool e Drogas) — que também atende casos de compulsão por jogos em adultos — funciona na Rua Presidente Olegário Maciel, 612, próximo às Lojas Americanas, em Araxá. O atendimento é destinado a pessoas a partir de 18 anos.
Já o CAPS Infantojuvenil, localizado na Rua Carvalho Lopes, 238, atende crianças e adolescentes de 4 a 18 anos incompletos. “Pode procurar qualquer um dos CAPS. Sempre vai ter uma equipe preparada para receber a família, orientar e, se for o caso, fazer a admissão.”
No CAPS AD não é necessário agendamento prévio — basta comparecer pela manhã. No infantojuvenil, é preciso agendar devido ao tempo maior de acolhimento inicial. O tratamento é voluntário. “A pessoa tem que querer o tratamento. Não tem nenhum tratamento compulsório.” Cada paciente recebe um plano terapêutico individual. “É construído um plano terapêutico com essa pessoa, onde as atividades são acordadas com ela. Depende do paciente, depende da adesão ao tratamento.”
Busca ativa e orientação às famílias
Para familiares que enfrentam resistência do paciente, existe o serviço de busca ativa. “A nossa equipe vai até essa pessoa, explica como é o tratamento e convida para conhecer o serviço.” Segundo Alessandra, muitas vezes o preconceito impede o primeiro passo. “Já tivemos caso de adolescente que não queria CAPS de forma alguma. Quando foi conhecer, entendeu que era diferente do que imaginava.”
Ela reforça: “Não tenha vergonha de procurar o CAPS. Esse primeiro passo já demonstra que a pessoa entende que precisa mudar.”
Novo mapeamento da saúde mental em Araxá
Ao final da entrevista, Alessandra anunciou que o município iniciará, a partir do próximo mês, uma pesquisa para mapear a saúde mental da população. “Hoje a gente não tem esse diagnóstico. Vamos identificar taxa etária, perfil dos pacientes, para criar políticas públicas mais eficazes.”
O objetivo é ir além das demandas espontâneas. “Esse mapeamento vai trazer clareza de quantas pessoas nós temos com sofrimento mental na cidade e, a partir daí, nortear os nossos projetos futuros.”
Tema que precisa ser discutido
A entrevista evidenciou que o vício em jogos não é um problema isolado. Afeta relações familiares, saúde financeira e equilíbrio emocional. “É uma doença e precisa ser tratada. A gente vê famílias destruídas por causa do vício.”
A rede municipal reforça que o atendimento é gratuito e aberto a toda a população. “Estamos de portas abertas nos CAPS e nas unidades básicas de saúde. É um tema muito relevante e precisamos falar sobre isso.”
Com o anúncio do mapeamento inédito, Araxá dá um passo para transformar relatos isolados em políticas públicas estruturadas, enfrentando de forma mais ampla o sofrimento mental no município.