Em entrevista ao Conexão Imbiara Economia e Negócios, farmacêutico Carlos Alexandre Ribeiro fala sobre gestão, genéricos, canetas emagrecedoras e a rotina dividida entre a drogaria e a UPA
A realidade de quem empreende no setor farmacêutico em uma cidade do interior exige versatilidade, atualização constante e, acima de tudo, proximidade com o cliente. Essa é a visão do farmacêutico generalista Carlos Alexandre Ribeiro, sócio-proprietário da Drogaria Estância e também farmacêutico na UPA de Araxá. Ele participou na última quinta-feira (19) do programa Conexão Imbiara Economia e Negócios, comandado por Carlos Nunes e pelo economista Silvio Gonçalves, onde compartilhou sua trajetória e analisou os rumos do mercado.
Carlos começou cedo. Aos 15 anos, entrou para a antiga Farmatel, onde permaneceu por 17 anos. Ele divide a carreira em duas etapas: a fase como funcionário e a fase como empresário. No início dos anos 2000, fez curso técnico no Senac e, depois, decidiu cursar Farmácia. Formado, viu surgir a oportunidade de assumir a Drogaria Estância ao lado da sócia Janaína, em 2010.
Quinze anos depois, ele define o desafio como grande, mas recompensador. “É muito bom trabalhar com o que a gente gosta”, resume. Há cerca de dois anos, passou também a atuar na UPA de Araxá, conciliando a rotina entre o comércio e o serviço público. “Na UPA, você está ali para servir. É uma forma de contribuir com a saúde pública.”
Um mercado que cresce, mas concentra
O setor farmacêutico brasileiro vive um momento de expansão. Segundo Carlos, o país tem cerca de 93 mil farmácias e o mercado vem crescendo em dois dígitos nos últimos anos. Em 2024, o faturamento chegou a aproximadamente R$ 240 bilhões.
Mas esse crescimento não é distribuído de forma igual. As grandes redes já dominam cerca de 70% do mercado nas capitais, o que deixa para as farmácias independentes o desafio de se manter competitivas, especialmente em cidades menores e bairros. Para ele, a presença dessas drogarias é essencial. “São elas que dão capilaridade, que chegam onde as grandes não chegam.”
O desafio de fazer tudo
Na prática, ser dono de uma farmácia independente significa acumular funções. “Eu abro a loja, atendo cliente, faço pedido, penso em estratégia de marketing, resolvo problema”, conta.
Outro desafio é o chamado “mix” de produtos. Enquanto grandes redes trabalham com mais de 7 mil itens diferentes, uma drogaria pequena costuma ter entre 2 mil e 3 mil. A gestão precisa ser precisa para evitar a chamada “ruptura”, quando o cliente procura um produto e não encontra.
Além dos medicamentos, as farmácias diversificaram. Hoje oferecem itens de higiene, beleza, vitaminas, suplementos e serviços como aplicação de injeções, aferição de pressão, medição de glicose e entrega em domicílio. Mas não basta apenas prestar o serviço. “Hoje você precisa registrar e orientar o cliente”, explica.
Preço não é tudo
Em tempos de concorrência acirrada, muitos acreditam que vender mais significa baixar preços. Carlos discorda. “Não é bem assim.” Ele explica que os medicamentos têm preço máximo definido ao consumidor, e que a estratégia passa por equilíbrio. Produtos de uso frequente podem ter margem menor para atrair clientes, enquanto outros compensam a rentabilidade do negócio. “Tem que ser um ganha-ganha. A drogaria precisa ganhar, mas o cliente também.”
Para ele, tentar competir com grandes redes nas mesmas condições é um erro estratégico. O diferencial da farmácia independente está no atendimento. “O nosso maior valor é o relacionamento mais humanizado, mais próximo.” O WhatsApp se tornou uma ferramenta importante, não apenas para cotação de preços, mas como canal de contato e fidelização.
Programas como o Farmácia Popular também têm papel relevante, atraindo pessoas com doenças crônicas e fortalecendo o vínculo com a comunidade.
Canetas emagrecedoras exigem responsabilidade
Um dos temas mais atuais abordados na entrevista foram as chamadas canetas emagrecedoras. Carlos vê esses medicamentos como uma revolução no tratamento da obesidade, problema que considera de saúde pública.
“Elas são uma ferramenta importante”, afirma. No entanto, faz um alerta: não existem remédios milagrosos. Como qualquer medicamento, há riscos. Ele cita, por exemplo, a possibilidade de pancreatite, mesmo que em percentual baixo, e lembra que, com milhões de usuários, todo risco precisa ser avaliado com cuidado.
Outro ponto importante são as interações medicamentosas. Como as canetas alteram o esvaziamento do estômago e a absorção, podem interferir em anticoncepcionais e anticonvulsivantes, por exemplo. “Tem que ter acompanhamento profissional”, reforça.
Além disso, ele destaca que, sem mudança de hábitos, o peso pode voltar após a interrupção do uso. “Se não mudar estilo de vida, o efeito sanfona pode acontecer.”
Do ponto de vista econômico, o mercado é promissor. Ele cita estimativas de que o setor movimentou cerca de R$ 10 bilhões no último ano, com projeção de chegar a R$ 50 bilhões até 2030. No Brasil, porém, os preços são elevados e podem ser até seis vezes maiores que em países vizinhos, devido a fatores como regulação da Anvisa, logística e armazenamento.
Genéricos e formação profissional
Carlos se declara defensor dos medicamentos genéricos. Segundo ele, são produtos que passam por testes rigorosos e precisam comprovar os mesmos efeitos do medicamento de referência. “É tão bom quanto. É uma questão mais comercial do que técnica.”
Ele também falou sobre a formação de profissionais. Observa que as grandes redes acabam sendo porta de entrada para jovens no mercado de trabalho, mas nota certa impaciência na nova geração. Lembra que, antigamente, muitos começavam como entregadores e cresciam dentro da empresa.
Na Drogaria Estância, a rotatividade é baixa. A equipe atual é formada por quatro pessoas. Para ele, a experiência prática faz diferença. “Você aprende a interpretar uma receita com o tempo. Só a sala de aula não basta.”
Dividindo o tempo e cuidando da família
Conciliar a gestão da drogaria com o trabalho na UPA exige organização. Pela manhã e à tarde, ele se dedica ao comércio. À noite, “vira a chave” para a rotina hospitalar, onde é responsável pela reposição e organização de medicamentos e materiais.
Nem sempre o planejamento sai como previsto. “Às vezes você precisa reprogramar, igual GPS”, brinca. Mesmo assim, faz questão de reservar tempo para a família e para visitar diariamente o pai.
Atendimento próximo da comunidade
Localizada na rua Wilson Borges, 770, a Drogaria Estância funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 13h. O contato também é feito pelo WhatsApp.
Mais do que vender medicamentos, Carlos afirma que a proposta é manter uma relação de confiança. “A gente trata os clientes como amigos.”
Ao final da entrevista, ele agradeceu o convite e destacou que falar sobre o setor é uma forma de aproximar ainda mais a farmácia da comunidade. Para ele, o futuro do segmento passa por tecnologia, responsabilidade e, principalmente, pelo cuidado com as pessoas.