BEM BRASIL
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Postado em: 26/03/2026 - 16:27 Última atualização: 27/03/2026 - 11:40
Por: Manoelita Chagas - Portal Imbiara

Violência contra a mulher cresce em Araxá e casos psicológicos preocupam autoridades

Delegada destaca aumento de ocorrências, reforça importância da denúncia e alerta para sinais de relações abusivas

Um dos pontos mais enfatizados pela delegada é o crescimento da chamada violência psicológica. Foto: Manoelita Chagas

A violência contra a mulher tem se tornado uma preocupação crescente em Araxá, especialmente pelos casos que não deixam marcas físicas, mas causam danos profundos e contínuos. O tema foi debatido nesta quinta-feira (26), durante entrevista no estúdio da Rádio Imbiara, com a delegada Dra. Paula Dib, responsável pela Delegacia de Proteção à Família no município.

Logo no início da conversa, a delegada explicou que a unidade policial é a principal porta de entrada para mulheres em situação de violência, mas destacou que os atendimentos vão além de relações conjugais. “A delegacia de proteção à família é a principal porta de entrada das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, mas a gente também tem muitos casos de mulheres que sofrem violência por parte de um homem que não integra o seu convívio”, afirmou, citando ocorrências de estupro, importunação sexual e perseguição.

Segundo ela, o cenário atual aponta para um aumento significativo dos registros. “A gente verifica no trabalho e no dia a dia, com certeza, um aumento dos casos de violência contra a mulher, principalmente violência psicológica, ameaça e lesão corporal”, ressaltou.

Dados nacionais reforçam esse alerta. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1.400 casos de feminicídio em 2023, além de crescimento nas denúncias de violência doméstica. Informações completas podem ser consultadas no site oficial: .

Violência invisível ganha destaque

Um dos pontos mais enfatizados pela delegada é o crescimento da chamada violência psicológica, muitas vezes naturalizada dentro das relações. Ela explica que ameaças, humilhações e controle da rotina são frequentes. “Aquela que todo dia o homem está tentando descredibilizar a vontade da mulher, não deixar sair de casa, proibir contato com parentes e amigos, os xingamentos, as ofensas, isso chega muito na delegacia”, destacou.

Apesar disso, ela avalia que houve avanço na conscientização. “As mulheres estão cada vez mais conscientes dos seus direitos e do que caracteriza a violência”, disse, apontando que esse fator também contribui para o aumento das denúncias.

Sinais de alerta e como agir

Identificar uma relação abusiva ainda é um desafio para muitas vítimas. A delegada orienta observar a repetição dos comportamentos agressivos. “Se todos os dias o companheiro está ofendendo ou agredindo, é preciso procurar a delegacia para que a gente tome as providências cabíveis”, afirmou.

Ela também reforça que a responsabilidade de sair do lar não deve recair sobre a vítima. “Não é a mulher que tem que sair de casa com os filhos, sem um local para ir. É o agressor que tem que abandonar esse lar”, explicou.

Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar. “Se a vítima está sofrendo violência naquele momento, o primeiro passo é sempre acionar a polícia para que ocorra a prisão em flagrante, que é sempre mais eficaz”, destacou.

Rede de apoio e acolhimento

Além das medidas legais, a delegacia atua de forma integrada com outros serviços do município. O atendimento inclui encaminhamento para assistência social e acompanhamento psicológico. “Às vezes, até uma conversa ali naquele momento, um acolhimento inicial, faz toda a diferença para a mulher se sentir forte”, explicou.

A delegada também destacou a importância de projetos preventivos, como o programa Dialogar, voltado à reeducação de agressores. “Muitas vezes, esse homem está repetindo um ciclo de violência familiar que ele viveu. A educação é um caminho importante para quebrar esse ciclo”, afirmou.

Crimes online e perseguição

Com o avanço da tecnologia, a violência também tem migrado para o ambiente digital. Casos de perseguição virtual e ameaças por redes sociais têm sido cada vez mais comuns. “O ambiente da internet não é protegido para a prática de crimes. A gente tem formas de investigar e provar essas ocorrências”, alertou.

Denúncia anônima e medo das vítimas

Mesmo com os canais disponíveis, o medo ainda é um dos principais obstáculos para a denúncia. “A principal arma do agressor é a ameaça. Muitas mulheres deixam de denunciar por medo”, afirmou.

Ela reforça que existem meios seguros para denunciar, como o Disque 180 e o Disque 100. “A pessoa não precisa se identificar, basta fornecer informações mínimas para que a gente possa iniciar a investigação”, explicou, acrescentando que a delegacia recebe diariamente diversas denúncias.

Desafios na prevenção

Apesar das medidas protetivas e do avanço das políticas públicas, a delegada reconhece que casos mais graves ainda são difíceis de evitar. “O feminicídio é uma situação passional e, muitas vezes, difícil de prevenir, mesmo com medidas judiciais”, pontuou.

Ela também chama atenção para fatores sociais que agravam o problema. “A violência perpassa todas as classes sociais, mas mulheres pobres e negras são mais suscetíveis a permanecer nesse ciclo por dependência econômica e afetiva”, disse.

Ao final da entrevista, a delegada reforçou a importância de buscar ajuda. “A orientação é procurar informação. A delegacia está à disposição para orientar e acolher”, concluiu.

Em Araxá, a Delegacia de Proteção à Família funciona na Rua Cecília Salomão, no Centro, com atendimento voltado ao acolhimento e encaminhamento das vítimas. A conscientização, segundo especialistas, continua sendo uma das principais ferramentas para romper o ciclo da violência e salvar vidas.