BEM BRASIL
BEM BRASIL
Postado em: 30/07/2026 - 10:10 Última atualização: 30/07/2026 - 10:15
Por: Manoelita Chagas - Portal Imbiara

Saúde bucal na terceira idade vai além da estética e pode impactar alimentação, autoestima e qualidade de vida em Araxá

Dentista Arthur Capucci alerta para a importância da prevenção, do acompanhamento periódico e da preservação dos dentes naturais

O profissional também explicou sobre cuidados com próteses, implantes, bruxismo e gengiva. Foto: Manoelita Chagas

Manter um sorriso saudável depois dos 60 anos está diretamente relacionado à qualidade de vida. A saúde bucal interfere na mastigação, na alimentação, na autoestima e até na disposição para atividades sociais. O tema foi discutido na última quarta-feira (29), durante o programa Vida Ativa 60+, da Rádio Imbiara, em Araxá, que recebeu o dentista Arthur Capucci, da Max Human.

Durante a entrevista, o profissional destacou que a odontologia para a população 60+ não deve ser vista apenas como uma questão estética. A preservação dos dentes, o tratamento de problemas existentes e a reposição de elementos perdidos podem contribuir para recuperar funções importantes da boca e devolver segurança ao paciente.

Segundo Capucci, é comum que pessoas nessa faixa etária cheguem ao consultório acreditando que não vale mais a pena investir na própria saúde bucal. Para o dentista, essa percepção precisa ser combatida. "Ah, estou com 60, já não vou mais cuidar do mesmo jeito", relatou ao explicar uma das ideias que ainda encontra entre pacientes.

A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal SB Brasil 2023, do Ministério da Saúde, mostra que o problema é relevante. Entre brasileiros de 65 a 74 anos, 55,37% disseram considerar que precisavam de tratamento odontológico e 49,58% afirmaram necessitar de próteses para substituir dentes perdidos. O levantamento também apontou que 36,48% eram totalmente desdentados e que aproximadamente 70% necessitavam de algum tipo de prótese. Consulte os dados completos do SB Brasil 2023 no Ministério da Saúde

Preservar o dente natural continua sendo prioridade

Antes de pensar em uma prótese ou implante, a orientação é avaliar o que ainda pode ser preservado. Capucci explicou que o tratamento odontológico começa pela recuperação da saúde da boca, com procedimentos para controlar cáries, infecções e outros problemas.

Somente depois dessa etapa é que entra a chamada reabilitação, destinada a devolver dentes perdidos e recuperar funções como mastigação e estabilidade da mordida. O profissional ressaltou que, quando um dente natural ainda apresenta condições favoráveis, a tentativa de preservá-lo costuma ser considerada antes da extração.

A perda de dentes também pode desencadear uma sequência de alterações. De acordo com o dentista, quando a mastigação deixa de funcionar adequadamente, outras estruturas podem ser sobrecarregadas. "A boca é o início", afirmou, comparando a mastigação ao funcionamento de um motor, em que uma peça comprometida pode provocar desequilíbrio no conjunto.

O Ministério da Saúde também relaciona a saúde bucal à alimentação e à saúde geral. A mastigação adequada contribui para a digestão e a absorção de nutrientes, enquanto doenças gengivais podem atingir os tecidos que sustentam os dentes e provocar mobilidade e perda dentária. 

Gengiva retraída e dentes aparentemente mais compridos precisam de avaliação

Um dos questionamentos enviados pelos ouvintes durante o programa foi justamente sobre a retração da gengiva. Uma ouvinte de 63 anos relatou perceber que a gengiva estava "subindo" e que os dentes pareciam cada vez mais compridos.

Capucci explicou que a situação pode estar relacionada à chamada recessão gengival e precisa ser investigada. Entre os fatores que podem contribuir estão infecções, trauma provocado por apertamento ou bruxismo e sobrecarga decorrente da ausência de dentes.

O dentista destacou que, nesses casos, o objetivo inicial é identificar e controlar a causa. "Isso precisa ser investigado para a gente sanar a causa", explicou. A recuperação da estrutura perdida nem sempre é simples, mas o tratamento pode impedir que o processo continue avançando.

A presença de placa bacteriana e tártaro também merece atenção. Segundo o Ministério da Saúde, a gengivite pode evoluir para periodontite, atingindo o osso que sustenta o dente, provocando exposição da raiz, mobilidade e, em casos mais avançados, perda dentária. 

O SB Brasil 2023 identificou cálculo dentário em 35,10% dos participantes de 65 a 74 anos avaliados. O dado reforça a importância do acompanhamento e da prevenção ao longo do envelhecimento.

Bruxismo pode começar ainda na infância

Outro assunto abordado durante o programa foi o bruxismo, caracterizado pelo apertamento ou ranger dos dentes. Segundo Capucci, o problema não é exclusivo dos adultos e também pode aparecer em crianças, especialmente durante a fase de troca da dentição.

O tratamento, nesses casos, precisa levar em consideração o desenvolvimento dos dentes. O dentista explicou que placas específicas podem ser utilizadas para proteger a dentição, mas o acompanhamento deve ser individualizado e pode envolver outros profissionais, como psicólogos.

Para Capucci, estresse e ansiedade estão frequentemente relacionados ao problema. "O estresse e a ansiedade", afirmou ao abordar possíveis fatores associados ao bruxismo, ressaltando a importância de compreender também o contexto emocional do paciente.

O acompanhamento precoce é importante porque o excesso de força provocado pelo apertamento pode contribuir para desgaste, sensibilidade e sobrecarga das estruturas que sustentam os dentes. Quando o problema permanece durante anos sem controle, as consequências podem ser mais difíceis de corrigir.

Implantes e próteses exigem tempo para a recuperação

A entrevista também tratou das possibilidades de reabilitação para quem já perdeu dentes. Entre elas estão próteses removíveis, fixas e implantes. O dentista ressaltou, porém, que a recuperação não deve ser acelerada artificialmente.

Nos casos que envolvem implantes e enxertos ósseos, o organismo precisa de tempo para cicatrizar e consolidar as estruturas. Capucci explicou que, dependendo do procedimento e das condições individuais do paciente, o período de cicatrização pode chegar a cinco ou seis meses antes das etapas finais da reabilitação.

A idade pode influenciar esse processo. De acordo com o profissional, pacientes mais velhos são acompanhados com maior cautela, especialmente quando existem outras condições de saúde associadas.

O planejamento também começa antes da cirurgia. Exames de imagem, como radiografias panorâmicas e tomografias, podem ser utilizados para avaliar as condições da região que receberá o tratamento. Em determinados casos, o implante pode ser colocado na mesma sessão em que um dente comprometido é removido, desde que as condições clínicas sejam adequadas.

Doenças e medicamentos precisam ser informados ao dentista

Para a população 60+, a avaliação odontológica também deve considerar todo o histórico de saúde do paciente. Diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, alergias, cirurgias anteriores e medicamentos utilizados regularmente são algumas das informações que precisam ser comunicadas ao profissional.

Capucci explicou que esses dados fazem parte da anamnese e ajudam a definir a maneira mais segura de conduzir o tratamento. Em pacientes com problemas cardíacos, por exemplo, o atendimento pode exigir contato com o médico responsável pelo acompanhamento clínico. "Não impede, restringe", resumiu o dentista ao explicar que uma condição cardíaca não necessariamente inviabiliza uma reabilitação odontológica, mas pode exigir adaptações, avaliação médica e cuidados adicionais.

O Ministério da Saúde orienta que pessoas idosas mantenham acompanhamento regular e procurem atendimento diante de sinais como dentes ou implantes amolecidos, sangramento gengival, dor, inchaço, próteses frouxas, manchas ou feridas que não cicatrizam em até 15 dias.

Prevenção continua sendo o caminho mais simples

Apesar dos avanços tecnológicos na odontologia, o dentista reforçou que o acompanhamento preventivo continua sendo a melhor estratégia. A ideia é identificar alterações antes que elas evoluam para quadros mais complexos.

Capucci defendeu avaliações periódicas e cuidados diários com a higiene. O Ministério da Saúde recomenda escovação com creme dental fluoretado, uso diário do fio dental e acompanhamento odontológico regular. Para pessoas que utilizam próteses ou implantes, a higienização adequada desses dispositivos também é essencial. 

A pesquisa SB Brasil 2023 mostra, entretanto, que ainda existe uma distância entre a necessidade de atendimento e a procura efetiva. Entre as pessoas de 65 a 74 anos entrevistadas, 51,97% disseram não ter procurado um serviço odontológico no ano anterior ao levantamento.

Para Capucci, superar a ideia de que a idade significa o fim dos cuidados com o sorriso é parte importante desse processo. "A odontologia atual hoje, em 2026, é anos-luz à frente de 20 anos atrás", afirmou ao destacar a evolução dos procedimentos e das técnicas utilizadas atualmente.

O atendimento, segundo ele, também precisa considerar as particularidades de cada paciente. Nem sempre a mesma solução funciona para pessoas diferentes, especialmente quando há outras condições de saúde envolvidas. Por isso, diagnóstico, planejamento e acompanhamento são fundamentais para definir o tratamento mais adequado.

Mais do que recuperar dentes, a proposta é devolver ao paciente a possibilidade de comer, falar, sorrir e participar da vida social com segurança. Como resumiu o dentista durante a entrevista, "sorrir não tem preço".