Postado em: 30/08/2026 - 15:34 Última atualização: 30/08/2026
Por: Manoelita Chagas - Portal Imbiara

Produção de embriões bovinos acelera melhoramento genético e amplia potencial reprodutivo

Médica veterinária e zootecnista Mariana Rodrigues explicou como funcionam a fertilização in vitro, a transferência de embriões e a seleção genética na pecuária

Mariana explicou que a FIV permite produzir o embrião fora do organismo da vaca. Foto: Manoelita Chagas

A reprodução bovina tem passado por mudanças importantes com a utilização de tecnologias que permitem acelerar o melhoramento genético dos rebanhos e ampliar a capacidade reprodutiva de animais considerados superiores. Entre essas ferramentas estão a fertilização in vitro (FIV) e a transferência de embriões, técnicas que permitem multiplicar uma genética selecionada em um número maior de animais.

O assunto foi discutido na sexta-feira, 28 de agosto, durante o programa Vida de Pet, da Rádio Imbiara. A entrevistada foi a médica veterinária e zootecnista Mariana Rodrigues, que atua na área de reprodução e genética bovina e compartilhou informações sobre as etapas do processo, os cuidados necessários e os fatores que influenciam os resultados.

Mariana explicou que a FIV permite produzir o embrião fora do organismo da vaca. O procedimento começa com a coleta dos oócitos, células reprodutivas femininas, que posteriormente são avaliadas e encaminhadas ao laboratório para passar pelo processo de maturação e fecundação. “Quando falamos em FIV, a FIV é fertilização in vitro. É a técnica que nós utilizamos para poder produzir esse embrião fora do organismo de uma vaca”, explicou a especialista.

Como o embrião é produzido

Depois da coleta, os oócitos passam por uma seleção para identificar aqueles que apresentam condições adequadas para continuar no processo. No laboratório, ocorre a fecundação com o sêmen escolhido e, posteriormente, o desenvolvimento embrionário.

Segundo Mariana, aproximadamente sete dias após a aspiração, o embrião pode estar pronto para ser transferido para uma receptora. Outra possibilidade é realizar o congelamento para utilização posterior, permitindo formar um estoque de material genético.

Nem todo o material coletado, entretanto, chega à fase de embrião. Durante as diferentes etapas, são feitas avaliações para identificar o que apresenta qualidade adequada e o que precisa ser descartado.

A técnica permite aumentar consideravelmente a quantidade de descendentes obtidos a partir de uma fêmea de alto valor genético. Na reprodução convencional, uma matriz normalmente gera um bezerro por gestação. Com a produção de embriões, a mesma doadora pode fornecer material para diversas transferências. “Antigamente, uma doadora, uma vaca, ela dava um bezerro por ano. Hoje, nós conseguimos pegar de uma matriz com uma genética maravilhosa de ponta e colocar ela em 30, 40, 50 embriões”, afirmou Mariana.

Receptora tem papel fundamental

Apesar de o embrião carregar a genética do macho e da fêmea escolhidos para a reprodução, a gestação acontece no útero de outra vaca, chamada receptora. Por isso, as condições de saúde e manejo desse animal são fundamentais para o sucesso da técnica. “Por mais que a genética do embrião não seja dela, o ambiente uterino é dela. É da receptora. Ela que vai dar continuidade à gestação”, explicou a veterinária.

A escolha das receptoras envolve avaliação das condições corporais e de saúde dos animais. Elas também passam por protocolos de sincronização para que o ciclo reprodutivo esteja adequado ao momento da transferência do embrião.

O acompanhamento continua depois da transferência, com diagnósticos de gestação e monitoramento ao longo do período. A condição da receptora também precisa ser observada pensando no parto e na segurança tanto da vaca quanto do bezerro.

Genética depende do macho e da fêmea

A qualidade do embrião não está relacionada apenas à escolha da matriz. O touro e o sêmen utilizado também são determinantes para o resultado. Por isso, a seleção genética precisa considerar os dois lados da reprodução. “O embrião, ele só é feito na junção do macho com a fêmea”, destacou Mariana.

A profissional explicou que o sêmen passa por avaliações e que existem diferentes estratégias de seleção de acordo com o objetivo do produtor. Entre elas está o uso de sêmen sexado, que pode aumentar a probabilidade de nascimento de animais de determinado sexo, embora não ofereça garantia absoluta.

A ferramenta pode ser especialmente interessante na pecuária leiteira, na qual existe maior interesse pela obtenção de fêmeas. A escolha, entretanto, deve fazer parte de um planejamento genético mais amplo.

Tecnologia precisa estar associada ao manejo

A utilização de embriões não deve ser analisada isoladamente. Para Mariana, o investimento precisa ser avaliado de acordo com os objetivos da propriedade, a estrutura disponível e o retorno esperado. “A tecnologia chega para qualquer nível, desde que seja bem avaliada junto com a parte técnica, a gestão daquela propriedade, para ver o investimento e o retorno financeiro que isso vai dar também”, afirmou.

Outro ponto destacado pela especialista é a necessidade de adaptar a genética escolhida às condições da propriedade. Um animal geneticamente superior pode não apresentar o desempenho esperado se for colocado em um ambiente sem condições adequadas de alimentação, manejo e estrutura. “Não adianta eu trazer matrizes boas para uma terra ruim”, ressaltou.

A avaliação, portanto, precisa considerar o conjunto de fatores que interfere na produtividade. A genética é uma parte do processo, mas precisa estar acompanhada de alimentação, manejo, sanidade e condições adequadas para os animais.

Reprodução pode ser planejada

As tecnologias reprodutivas também permitem organizar melhor o calendário da propriedade. A reprodução programada pode ajudar o produtor a concentrar os nascimentos e planejar períodos de alimentação, manejo e cuidados com os animais.

Na pecuária de corte, por exemplo, a estação de monta é uma das estratégias utilizadas para organizar o período reprodutivo do rebanho. Quando associada às biotecnologias da reprodução, permite maior controle sobre o planejamento da produção. “Hoje, a bovinocultura, ela sim pode ser programada. E programada sempre pensando no melhoramento genético, acompanhada aí com manejo de campo”, explicou Mariana.

A profissional também destacou que a produção de embriões representa uma forma de multiplicar características consideradas positivas em um rebanho. “A vantagem do embrião bovino é trazer tecnologia, multiplicação do que é bom”, resumiu.

A adoção dessas técnicas, portanto, representa uma mudança na forma como o produtor pode trabalhar a reprodução e o melhoramento genético. Em vez de depender apenas do ritmo natural de reprodução das matrizes, é possível utilizar laboratório, seleção genética e transferência de embriões para ampliar a disseminação de características desejáveis.