O aumento considerável dos registros se dá a partir de 2020; enquanto isso famílias em extrema pobreza lutam para viver em condições de subsistência na cidade
Janeiro de 2021 registrou um total de 10.205 famílias araxaenses no Cadastro Único (CadÚnico). Este número é a base de monitoramento da Secretaria de Ação e Promoção Social de Araxá para acompanhar o crescimento da pobreza no município. A secretária, Cristiane Gonçalves Pereira, ainda alerta que neste número pode haver subnotificação.
Se comparados com os mesmos meses dos anos de 2018 e 2019, o número de famílias da cidade que recorreram a algum benefício público subiu em torno de 11%. Nos anos pré-pandemia foram observados respectivamente no mesmo mês a quantidade de 9.274 e 9.230 registros. Já em 2020, janeiro obteve a quantidade de 9.833 cadastros.
A renda das famílias cadastradas nos programas sociais públicos são variadas, mas todas se incluem na faixa de renda de limite da pobreza. Deste total, 4.552 famílias que vivem em Araxá se enquadram na situação de extrema pobreza, ou seja, famílias que vivem com uma renda per capita inferior a R$ 82 por mês.
Maria das Neves Conceição, moradora há 7 anos do Bairro São Francisco, deveria se enquadrar nestes dados, mas não conseguiu realizar seu cadastro. Ela afirma não saber o motivo pois os seus documentos estavam certos. Maria é mãe de duas filhas e perdeu o marido recentemente. Fábio Gomes Barbosa trabalhava com a esposa na reciclagem, mas morreu de diabetes. Ele faria 37 anos nesta terça-feira (11).
Sem nenhum benefício, Maria explica que junto com seu esposo conseguia fazer por mês um valor que variava de R$ 80 a R$ 150. Este valor era suficiente para sustentar o casal e as duas filhas por até 15 dias. Para terminar o mês, Maria recorre a “bicos” que ajudam a comprar o essencial, no qual se inclui somente comida. “Um me chama pra lavar uma roupa, outro me chama pra fazer uma faxina", explica.

Maria das Neves mostra onde cozinha quando falta gás. Os galões em sua volta são utilizados para armazenar água (Foto: Felipe Madeira/Portal Imbiara)
Em sua casa, assim como parte de todo assentamento onde mora Maria, não existe saneamento básico, ou seja, as residências não possuem banheiros. A água chega por meio de uma rede de mangueiras improvisadas, onde fica armazenada em galões, pois falta abastecimento frequentemente. Quando acaba o gás, situação comum, a família recorre ao fogo de lenha. “Passei quase seis meses cozinhando na lenha sem botijão. Aí, quando a gente começou a catar reciclagem, foi que a gente teve condições de comprar”, conta.
Para evitar que os benefícios sociais fiquem inacessíveis a estas famílias, a secretária Municipal de Ação Social, Cristiane Pereira, explica que a gestão atual tem apostado na divulgação e descentralização dos cadastros. “Todas as requisições eram feitas na Secretaria mesmo. Com a descentralização, a gente jogou para os territórios a possibilidade dessas famílias acionarem o serviço social. Isso é um fator que pode facilitar, além da divulgação”, disse.
Marlucy dos Santos mora no mesmo bairro que Maria, há pouco mais de 9 anos. Desempregada aos 56 anos, ela conta que conseguiu se cadastrar aos benefícios do Bolsa Família e do Auxílio Emergencial. Somados, o valor chega a pouco mais de R$ 350 para sustentar a beneficiária e seu filho de 9 anos. Mesmo assim, a quantia também não supre suas necessidades mensais. “Peço ajuda ao pessoal quando vem trazer cesta pra nós”, fala.

Marlucy com sua neta mostra a casa onde vive por 9 anos (Foto: Felipe Madeira/Portal Imbiara)
Assim como sua vizinha, Marlucy também perdeu o marido há seis meses. Ivanildo da Silva morreu de parada cardíaca com apenas 58 anos de idade. Além de seu filho, também estão morando com ela mais duas netas, temporariamente. Fora o gasto com alimentos, ela conta que precisa de remédios, o que acaba limitando seu benefício.
Além dos programas sociais, implementados pelo governo federal e pelo município, essas famílias ainda contam com auxílio de diversas instituições de caridade que colaboram com cestas básicas, roupas, agasalhos entre outros itens. Vizinhos do local, que observam esta realidade de perto, também tentam ajudar levando marmitas e auxiliando com algumas necessidades.
Cristiane avalia que o número de registros de pobreza no município deverá se agravar, nas faixas superiores a de extrema pobreza. “Depois do agravamento da crise econômica advindo desta pandemia, algumas famílias que se enquadram na classe média, classe média baixa, tiveram perda do seus empregos. Estas famílias não tinham o costume de acessar o serviço de assistência social”, indica a secretária, apontando o motivo da subnotificação.
Segundo relato da secretária, muitas famílias que estão entrando agora na faixa de pobreza já tinham o costume de ajudar com doações para instituições. “Elas acessam muito as organizações da sociedade civil e não acessam os serviços da prefeitura. Às vezes contam com ajuda de familiares, igrejas e centros espiritas”, conta.
Este é o caso do jovem casal Michael Freitas Nascimento e Bruna de Souza Queiroz. Com 27 anos, Michael é autônomo e trabalha na linha de montagem de móveis. Os dois vivem com cerca de um salário mínimo em uma casa da mãe de Bruna. No entanto, o autônomo explica que o serviço tem ficado escasso. “Eu pegava serviço todo dia, agora é duas ou três vezes na semana”, fala Michael Nascimento.

Michael e Bruna, juntos buscam melhorias no local onde moram (Foto: Felipe Madeira/Portal Imbiara)
Mesmo conseguindo manter as contas em dia, Michael explica que o dinheiro é pouco para fazer algum investimento extra. O casal também conta que às vezes é necessário recorrer a familiares, por isso resolveram se cadastrar no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), para receber a cesta básica, mas após o prazo de um mês ainda não havia recebido retorno. Michael e Bruna ainda contam com o Auxílio Emergencial para manter a casa.
A secretária de Ação Social ainda explica que o crescimento registrado na linha de pobreza já é alarmante e que o número de famílias em extrema pobreza deverá aparecer expressivamente com a estratificação dos dados governamentais. “Quando chegarmos em setembro, teremos os números de abril e maio e com certeza teremos um aumento considerável, porque em dezembro a gente finalizou com os Auxílios Emergenciais, encerramentos das medidas provisórias com muitas demissões no início do ano”, finaliza.

Cristiane Gonçalves explica o crecimento do numero de registros no CadÚnico (Foto: Arquivo/Portal Imbiara)
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a estimativa para a população araxaense em 2020 é de cerca de 107 mil habitantes, com mais de 10 mil famílias já registradas no CadÚnico, pode-se dizer que pelo menos 10% da população já está na linha de pobreza. Se avaliado que cada família cadastrada possui uma média de três integrantes, então a taxa de pobreza chega a pelo menos 30% no município de Araxá. O cenário é discrepante se observado o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de R$ 58.774, registrado em 2018, na mesma base de dados do IBGE.