BEM BRASIL
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Postado em: 13/08/2026 - 09:05 Última atualização: 13/08/2026 - 09:17
Por: Rogério Farah - Portal Imbiara

O dilema das BET’s: Quando a aposta pesa no bolso, na mente e nas relações familiares

Dados mais recentes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda indicam que 25,2 milhões de pessoas apostaram em 2025

Números alarmantes no Brasil, em Minas Gerais e o impacto devastador nas famílias. Foto: Imagem gerada por IA

As chamadas bet's deixaram de ser um fenômeno restrito ao universo esportivo e passaram a ocupar um espaço preocupante no orçamento de milhões de brasileiros. Dados mais recentes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda indicam que 25,2 milhões de pessoas apostaram em 2025, movimentando cerca de R$ 62,5 bilhões em transferências para as plataformas, enquanto a receita bruta das casas chegou a R$ 36,96 bilhões, no mesmo período. Considerando a população brasileira, os 25,2 milhões correspondem a aproximadamente 12% de todos os habitantes do país — e a proporção é ainda maior quando se considera apenas a população adulta.

Fato é que as plataformas de apostas, diante da propaganda maciça em busca dos apostadores, se transformaram rapidamente em um fenômeno nacional, alcançando milhões de brasileiros, graças à união da diversão popular, aliada ao sonho do enriquecimento fácil. Porém, o problema ganha outra dimensão quando se observa que as apostas podem ultrapassar a fronteira do entretenimento e atingir a saúde mental, as relações familiares e a própria capacidade de organização da vida cotidiana. O Ministério da Saúde, inclusive, já trata o uso problemático das apostas como uma questão de saúde pública e passou, utilizando a estrutura do SUS, a oferecer orientação e atendimento específico.

Dados reunidos pelo Ministério da Saúde mostram que 25,9% dos brasileiros já haviam jogado ou apostado alguma vez na vida e que, entre os jogadores, 4,4% apresentavam alto risco de envolvimento problemático. Embora esses números não signifiquem que todo apostador tenha algum transtorno, eles revelam a existência de um grupo expressivo para o qual a prática pode deixar de ser lazer e assumir características de comportamento compulsivo. O próprio Ministério explica que o transtorno do jogo é reconhecido pela CID e pelo DSM como um transtorno de comportamento aditivo, podendo comprometer as áreas financeira, profissional, familiar e emocional.

Voltando ao aspecto financeiro, a situação também impressiona: levantamento do Procon-SP realizado com apostadores mostrou que 39,7% declararam ter contraído dívidas em razão das apostas, enquanto aproximadamente 52% disseram ter utilizado parte significativa da renda, retirado dinheiro de aplicações ou recorrido a empréstimos, para continuar jogando. O levantamento ainda apontou que quase 69% tiveram mais perdas do que ganhos, evidenciando o risco de um comportamento em que o apostador tenta recuperar aquilo que perdeu colocando ainda mais dinheiro em jogo.

É justamente nesse ponto que a dívida financeira pode começar a se transformar em adoecimento emocional. O Guia de Cuidado do Ministério da Saúde associa os problemas relacionados às apostas a manifestações como ansiedade, depressão, culpa, isolamento social, alterações do sono e do humor, além de conflitos e ruptura de vínculos familiares. Em situações mais graves, o documento também chama atenção para a possibilidade de pensamentos de morte e outros comportamentos relacionados ao agravamento do sofrimento psíquico.

Forma-se, então, um círculo potencialmente perigoso: a pessoa perde dinheiro, tenta recuperar a perda apostando novamente, aumenta o endividamento, passa a esconder seus gastos e experimenta ansiedade, culpa ou desespero, enquanto os problemas dentro de casa se multiplicam. O Ministério da Saúde alerta que as próprias características das plataformas — disponibilidade permanente, notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis — podem estimular a permanência e a repetição das apostas. Por isso, o prejuízo não deve ser medido somente pelo dinheiro que desaparece da conta bancária, mas também pelo desgaste emocional e social que pode atingir o apostador e toda a sua família.

A gravidade do fenômeno levou o Ministério da Saúde a lançar, em julho de 2026, a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, oferecendo informações, acolhimento e tratamento para apostadores e familiares afetados. O Sistema Único de Saúde dispõe atualmente de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde, nos CAPS e também de teleatendimento especializado em saúde mental, ao qual o cidadão pode chegar pelo Meu SUS Digital mediante autoteste que ajuda a identificar situações de risco.

No fim das contas, talvez seja necessário mudar a maneira como enxergamos as bet’s: não é apenas uma questão de ganhar ou perder dinheiro, mas de saber quando a aposta começa a controlar a vida de quem aposta. O Banco Central reforça, em seu material de educação financeira, que apostas não são modalidade de investimento e que o dinheiro colocado nesse tipo de atividade está sujeito à perda, enquanto o Ministério da Saúde recomenda atenção a sinais como gastar mais do que o planejado, preocupar-se constantemente com o jogo e perceber alterações no sono, humor, rotina ou relacionamentos. Porque, quando a aposta começa a cobrar seu preço na conta bancária, na tranquilidade e dentro de casa, a verdadeira perda pode ser muito maior do que o valor mostrado no extrato.

Fontes: Ministério da Saúde; Ministério da Fazenda; Banco Central do Brasil; Procon-SP.