BEM BRASIL
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Postado em: 26/08/2026 - 09:29 Última atualização: 26/08/2026
Por: Rogério Farah - Portal Imbiara

Quando a falta de água pode se transformar em problema de saúde pública

Após períodos sem abastecimento de água, estudos científicos comprovam o aumento de doenças infecciosas

Também na cidade de Vitória, no Espírito Santo, outro estudo utilizou dados da Vigilância da Qualidade da Água. Foto: Imagem feita por IA

A falta de água não representa apenas o desconforto de abrir a torneira e não encontrar água. Interrupções, intermitência e precariedade no abastecimento podem aumentar o risco de doenças infecciosas, especialmente aquelas relacionadas à água e à falta de condições adequadas de higiene. Estudos científicos realizados no Brasil apontam associações entre problemas na qualidade e na continuidade do abastecimento e a ocorrência de diarreias, gastroenterites, hepatite A e outros agravos de transmissão hídrica.

Por exemplo, no Distrito Federal, pesquisadores analisaram dados de 2012 a 2017, período que incluiu ocorrências de racionamento e a intermitência no fornecimento de água. O estudo reuniu informações sobre reclamações dos consumidores, qualidade da água e registros de doença diarreica aguda e hepatite A, chamando atenção para o fato de que vazamentos e interrupções no sistema podem comprometer a qualidade da água e favorecer a presença de agentes causadores de doenças. A pesquisa também demonstrou a importância do monitoramento permanente e das ações corretivas da empresa de abastecimento para reduzir esses riscos, inclusive durante o período de intermitência.

Também na cidade de Vitória, no Espírito Santo, outro estudo utilizou dados da Vigilância da Qualidade da Água, do serviço de abastecimento e do programa de monitoramento da doença diarreica aguda. Por meio de análises estatísticas, os pesquisadores encontraram associações significativas entre a ocorrência de diarreia e parâmetros como turbidez e presença de coliformes na água. Embora os próprios autores ressaltem que a diarreia possui múltiplas causas e não pode ser atribuída exclusivamente à água distribuída, os resultados reforçaram a necessidade de cuidados rigorosos com a rede de abastecimento.

Outro levantamento, desta vez em Minas Gerais, utilizou pesquisa desenvolvida em município da Zona da Mata, que analisou situações em que a população recorria a soluções individuais ou alternativas de abastecimento, realidade que pode se tornar mais frequente em períodos de restrição hídrica. O estudo encontrou, na área urbana, correlação estatisticamente significativa entre o número dessas soluções alternativas e os casos notificados de doença diarreica aguda. A conclusão reforça a importância da ampliação do acesso à água segura e do acompanhamento sanitário das fontes utilizadas pela população quando o abastecimento regular é insuficiente ou interrompido.

O risco, portanto, não depende apenas da eventual contaminação da água que sai da estação de tratamento. Quando falta água, diminuem as possibilidades de lavar adequadamente as mãos, higienizar alimentos, limpar utensílios e manter condições sanitárias básicas, enquanto muitas famílias passam a armazenar água ou recorrer a fontes alternativas. O Ministério da Saúde destaca que a qualidade da água, o saneamento e medidas básicas de higiene são fundamentais para prevenir doenças diarreicas e mantém, por meio do Vigiagua, ações específicas para prevenir e investigar doenças e surtos relacionados à água.

É importante, contudo, evitar conclusões automáticas: não se pode afirmar, sem uma investigação epidemiológica, que toda interrupção no abastecimento provocará necessariamente um surto ou aumento de “viroses” em determinada cidade. Mas a ciência permite sustentar, com segurança, que a precariedade e a descontinuidade do acesso à água criam condições que aumentam o risco de doenças infecciosas, especialmente diarreias e gastroenterites causadas por vírus, bactérias e outros microrganismos. Por isso, diante de episódios repetidos de desabastecimento, a resposta não deve se limitar ao restabelecimento da água: é igualmente necessário acompanhar os indicadores de saúde, investigar eventuais aumentos de casos e assegurar que a população tenha acesso contínuo à água em quantidade suficiente e dentro dos padrões de potabilidade.