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OUTUBRO ROSA
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Postado em: 01/10/2026 - 16:38 Última atualização: 01/10/2026
Por: Rogério Farah - Portal Imbiara

Etarismo: quando envelhecimento é tratado como defeito

E a sociedade começa a desperdiçar pessoas e ótimas referências de vida…

No trânsito, a discussão também precisa fugir dos estereótipos. Foto: Imagem gerada por IA

O nosso país está envelhecendo rapidamente, mas não necessariamente aprendendo a conviver com quem envelhece. Em 2024, o Brasil tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, número que cresceu 53,3% desde 2012, sendo que, desse contingente, 24,4% estavam ocupados, o que, segundo o IBGE, seria até então o maior nível da série histórica. Esse dado revela uma realidade que precisa ser enfrentada: milhões de brasileiros mais velhos continuam trabalhando, produzindo, dirigindo, cuidando de familiares, consumindo e participando ativamente da sociedade, apesar dos preconceitos associados à idade.

O etarismo, também chamado de idadismo, aparece quando uma pessoa é desvalorizada, limitada ou discriminada simplesmente por ter determinada idade. Ele pode surgir dentro da própria família, quando o idoso deixa de ser ouvido ou passa a ser tratado como incapaz de decidir sobre sua própria vida, mas também aparece no mercado de trabalho, nas relações sociais e até na forma como a sociedade interpreta sua presença nas ruas. No ambiente profissional, os números mostram que a participação dos 60+ é expressiva, mas também revelam vulnerabilidades: em 2024, 55,7% dos idosos ocupados estavam em atividades informais, enquanto o trabalho por conta própria respondia por 43,3% das ocupações desse grupo.

Há ainda uma diferença importante entre simplesmente estar empregado e ter oportunidades profissionais compatíveis com experiência, capacidade e dignidade. Segundo dados do IBGE, em 2024, a taxa de ocupação era de 34,2% entre os homens idosos e 16,7% entre as mulheres, enquanto, entre aqueles de 60 a 69 anos, trabalhavam 48% dos homens e 26,2% das mulheres. Portanto, quando uma empresa elimina automaticamente um candidato porque considera que “já passou da idade”, ou quando presume que uma pessoa mais velha não consegue aprender uma tecnologia, o problema não está necessariamente na idade, mas no preconceito que transforma a idade em critério de incapacidade.

No trânsito, a discussão também precisa fugir dos estereótipos. Nosso país tem bases oficiais da Senatran para condutores habilitados, infrações e sinistros, ao passo que Susep mantém o Autoseg, sistema que permite analisar estatísticas de automóveis inclusive por faixa etária do condutor, sendo que, entretanto, essas informações consolidadas, isoladamente, não autorizam afirmar que idosos cometem mais infrações ou provocam mais sinistros simplesmente por serem idosos, em comparação com a população mais jovem. Afinal, uma infração de trânsito que resulte em multa, ou mesmo um acidente, envolvendo um motorista idoso, sempre será uma situação individual, não podendo ser automaticamente transformado em argumento válido, para retirar de todos os idosos o direito de dirigir.

O problema torna-se ainda mais delicado quando o preconceito social se transforma em isolamento, perda de autonomia ou sensação de inutilidade. A partir da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE que encontrou, em 2019, 10,2% de adultos com diagnóstico de depressão, sendo a maior proporção justamente na faixa de 60 a 64 anos, com 13,2%, restou novamente confirmado que o fator idade também influi decisivamente no aparecimento e agravamento da enfermidade, que o próprio Ministério da Saúde definiu como uma doença grave e está fortemente associada ao suicídio. Isso não significa que o etarismo seja causa direta de depressão ou de suicídio, mas estudos e autoridades de saúde reconhecem que isolamento, perda de papéis sociais, dificuldades financeiras, viuvez, conflitos familiares e redução das relações interpessoais podem compor contextos de sofrimento que exigem atenção.

Quando se chega ao extremo do suicídio, os números exigem ainda mais responsabilidade. Boletim do Ministério da Saúde aponta que, em 2021, o Brasil registrou mais de 15,5 mil suicídios e destaca que as maiores taxas estavam entre homens e, especialmente, entre idosos, sendo que o documento também relaciona, entre pessoas idosas, a própria aposentadoria, a redução da renda, a perda de papéis sociais e diminuição das relações interpessoais como fatores associados ao risco. Minas Gerais, conforme dados apresentados em audiência da Assembleia Legislativa em 2025, registrava uma taxa de 7,8 suicídios por 100 mil habitantes entre pessoas idosas, contra 6 por 100 mil na população geral, com diferença ainda mais acentuada entre homens idosos, cuja taxa citada foi de 14,8 por 100 mil.

No município de Araxá, o envelhecimento já é uma realidade concreta e merece ser observado para além dos números, inclusive diante do diagnóstico socioterritorial apresentado pela Prefeitura que, em janeiro de 2026, que apontou crescimento acelerado da população idosa e informou que 96% das pessoas idosas do município são acompanhadas pela rede de saúde, além de mais de 18 mil benefícios previdenciários ativos, que movimentam aproximadamente R$ 35 milhões mensais na economia local. O desafio, portanto, não é simplesmente “cuidar dos velhos”, mas construir uma cidade na qual experiência não seja confundida com algo ultrapassado, idade não seja confundida com incapacidade e aposentadoria não seja confundida com inutilidade, até porque envelhecer não deveria significar perder o direito de ser ouvido, respeitado, desejado, contratado, amado e reconhecido como cidadão plenamente capaz de participar da vida em sociedade.

Uma constatação que precisa incomodar: O etarismo talvez seja uma das formas mais silenciosas de preconceito, porque aparece disfarçado de cuidado, preocupação ou “bom senso”, em muitos casos. A pergunta que precisamos fazer, como família e como sociedade, é simples: estamos realmente protegendo nossos idosos ou estamos, muitas vezes, retirando deles autonomia, voz, trabalho, convivência e protagonismo sob o argumento de que estamos cuidando? E existe uma dimensão ainda mais profunda: todos nós que tivermos a oportunidade de viver muitos anos estaremos, algum dia, no lugar daqueles que hoje chamamos de idosos. Combater o etarismo, portanto, não é apenas defender quem já passou dos 60 anos. É defender o nosso próprio futuro.