Levantamento aponta que mulheres representaram 52% das vítimas de violência política, embora fossem apenas 35% das candidaturas
A violência política aumentou durante o primeiro turno das Eleições 2026 e atingiu principalmente as mulheres. Segundo levantamento realizado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, foram registrados 134 episódios de violência política contra candidatos, candidatas e outros agentes políticos durante os 50 dias de campanha.
O número representa um aumento de 11% em relação aos 121 casos registrados no mesmo período das eleições municipais de 2022. Na média, houve um episódio de violência política a cada nove horas.
Apesar de representarem apenas 35% do total de candidatos, as mulheres foram vítimas em 52% dos casos registrados no primeiro turno. Quando considerados apenas os episódios envolvendo pessoas que disputavam as eleições, a diferença é ainda maior: dos 102 casos registrados, 60 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a quase 59%.
Os dados fazem parte da quarta edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, divulgada nesta quarta-feira (7). O estudo é realizado pelas organizações desde 2016 e busca identificar os principais padrões de violência relacionados à participação política no país.
Machismo e misoginia aparecem entre os principais fatores
A pesquisa também aponta que a violência política contra mulheres é marcada por questões de gênero e raça. Dos 70 casos de violência política envolvendo mulheres, 45 tiveram relação com machismo ou misoginia. Outros nove envolveram racismo e cinco foram relacionados à transfobia.
Mulheres pretas representaram 25% das vítimas de violência política registradas no primeiro turno.
As ameaças foram o tipo de violência mais frequente, com 64 ocorrências, seguidas por 33 episódios de ofensas e 19 agressões físicas. O levantamento também registrou 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos.
As mulheres também foram as únicas vítimas nos sete casos de ameaça de violência sexual registrados durante o período eleitoral.
Ruas e internet concentram ocorrências
A maior parte dos episódios ocorreu durante atividades presenciais de campanha. Ao todo, 71 casos foram registrados nas ruas, enquanto o ambiente virtual concentrou 31,3% das ocorrências.
Segundo as organizações responsáveis pelo levantamento, a violência política contra mulheres, pessoas negras e pessoas trans apresenta características específicas relacionadas às desigualdades estruturais da sociedade.
Outro dado apontado pela pesquisa é a participação de agentes públicos entre os autores. Em quase 20% dos casos, o responsável identificado era um agente público, incluindo parlamentares e integrantes das forças de segurança.
Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição efetiva, segundo as organizações. Nos casos acompanhados pela Justiça Eleitoral, foram registradas medidas cautelares de urgência.
Nordeste lidera registros
O Nordeste foi a região com maior número de episódios, com 48 casos, seguido pelo Sudeste, com 38.
Entre os estados, São Paulo registrou o maior número de ocorrências, com 16 casos. Na sequência aparecem Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10).
Os dados mostram que, mesmo sendo minoria entre as candidaturas, as mulheres continuam desproporcionalmente expostas à violência durante a disputa política, especialmente a ataques relacionados a gênero, raça e sexualidade.