Sociólogo e professor Demian Sousa analisa as razões sociais, econômicas e culturais por trás do crescimento das igrejas evangélicas
O número de pessoas que se declaram evangélicas em Araxá teve um salto expressivo nos últimos anos. Segundo dados do Censo 2022, divulgado pelo IBGE, o município passou de 11.190 evangélicos em 2010 para 18.874 em 2022, um aumento de 68,67%. A mudança acompanha uma tendência nacional e levanta questionamentos sobre os motivos desse crescimento.
Para o professor e sociólogo araxaense Demian Sousa, o avanço evangélico pode ser explicado por uma combinação de fatores sociais, culturais e econômicos. “A Igreja Evangélica é diversa, ampla, como um catálogo onde o fiel escolhe aquilo que mais se identifica. Se não gosta da pregação em uma igreja, pode buscar outra. Há igrejas para todos os perfis”, afirma.
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Rede de apoio social e teologia da prosperidade
Outro ponto destacado por Demian é a atuação prática das igrejas evangélicas em comunidades vulneráveis. “O Brasil é um país muito pobre, e o Estado não chega em todos os espaços. As igrejas evangélicas ocupam essas lacunas. Elas oferecem alimento, apoio emocional, ajudam a conseguir emprego e criam uma rede de pertencimento.”
Ele também chama atenção para a chamada “teologia da prosperidade”, muito presente em algumas igrejas, que promete bênçãos materiais em troca da fé e das contribuições dos fiéis. “Essa teologia está muito alinhada ao desejo contemporâneo por melhoria de vida. A Igreja Evangélica oferece respostas rápidas, enquanto a Igreja Católica preserva mais suas tradições.”
Igreja como espaço de protagonismo
Demian explica ainda que, muitas vezes, a igreja oferece protagonismo social para pessoas que são invisíveis no restante da sociedade. “Alguém que é atendente de uma lanchonete, por exemplo, pode ser o porteiro da igreja à noite, ganhando reconhecimento e respeito dentro daquele espaço.”
Participação crescente
Pastor Valdemiro Santiago abençoa fiés com a chamada Imposição das Mãos - O evento contou com milhares de pessoas no Centro de Araxá. Foto: Alex Xexéu
O impacto desse crescimento também é percebido em eventos e manifestações públicas de fé. Um exemplo foi a presença do apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, em Araxá durante a Sexta-feira Santa (Abril de 2025), quando reuniu uma multidão no centro da cidade.
“Araxá está em festa, graças a Deus. A multidão vem por causa dos frutos que já tem na vida delas, que é a marca da fé”, disse o apóstolo à reportagem. Ele também comentou sobre a expansão do evangelismo: “O evangelho transforma vidas. É por isso que ele cresce”.
Importância do Censo

Professor e Sociólogo Demian Sousa em Araxá. Foto: Alex Xexéu
Demian também destaca a qualidade dos dados do IBGE. “O IBGE é uma das instituições mais respeitadas do mundo em estatísticas. A forma como disponibiliza os dados é exemplar.” Ele lembra que as respostas do Censo são feitas por ligação telefônica e considera que, em alguns casos, pode haver distorções — como pais informando a religião de filhos que, na prática, já não seguem mais a mesma fé.
Araxá segue majoritariamente católica, mas mudança é evidente
Mesmo com o crescimento evangélico, os católicos ainda são maioria em Araxá. Mas a movimentação religiosa mostra uma nova configuração em andamento, com igrejas evangélicas ganhando força especialmente em bairros mais periféricos, onde muitas vezes também cumprem papel social e comunitário.