BEM BRASIL
BEM BRASIL
Postado em: 08/07/2025 - 10:57 Última atualização: 08/07/2025 - 14:43
Por: Alex Sander Xexéu - Portal Imbiara

IBGE e Religões: Umbanda e Candomblé registram aumento de 265% em Araxá, segundo o Censo

Crescimento nas declarações de fé revela busca por pertencimento segundo o promotor cultural e umbandista Jhobert Rodrigues

Sessão de orações na Tenda Espírita Pai José de Aruanda em Araxá. Foto: Alex Sander Xexéu

As religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, registraram crescimento expressivo em Araxá nos últimos 12 anos. Segundo o Censo 2022, 752 pessoas se declararam praticantes dessas religiões na cidade, contra 206 no Censo de 2010 — uma variação percentual de 265,05%, conforme os dados divulgados pelo IBGE. Embora os números absolutos ainda sejam menores em relação a outras religiões, o aumento proporcional chama a atenção e reflete mudanças culturais e sociais em curso.

Para o professor e sociólogo Demian Souza, o Brasil continua sendo um país essencialmente cristão, mas o crescimento das religiões afro-brasileiras mostra uma abertura maior da população. “A Umbanda, por exemplo, cresceu cerca de 300% no país. Mesmo ainda sendo minoria, é importante observar que há mais pessoas se identificando com essas religiões, apesar da histórica demonização sofrida por elas”, explica. Segundo ele, o preconceito ainda é um obstáculo, pois por muitos anos essas religiões foram associadas, de forma equivocada, a figuras demoníacas — uma narrativa usada para afastar pessoas e fortalecer outras doutrinas.

Professor e Sociólogo Demian Souza em Araxá. Foto: Alex Xexéu

Segundo a chefe da Agência do IBGE em Araxá, Lorena Carla, o dado é significativo: “Em números absolutos, os evangélicos continuam crescendo muito. Mas em termos proporcionais, as religiões afro-brasileiras apresentaram o maior salto.” Para especialistas, isso reforça a necessidade de combater o preconceito religioso, promover o respeito à diversidade de crenças e garantir espaço igualitário para todas as expressões de fé no Brasil.

Chefe da agência do IBGE em Araxá, Lorena Carla. Foto: Alex Xexéu 

Para o promotor cultural Jhobert Rodrigues, que também é praticante da Umbanda e do Candomblé, esse crescimento se deve à maior visibilidade, ao acesso à informação e ao rompimento com o medo e o preconceito. “Antigamente não era comum a gente estar numa entrevista como essa, não só pelo preconceito, mas pelo medo de como a sociedade iria reagir. Hoje a gente vê mais fotos, vídeos, lives... isso é fruto da evolução tecnológica e até da pandemia. As pessoas estão perdendo o medo de conhecer”, afirma.

Jhobert contou que sua trajetória espiritual começou na infância, em uma família cristã, mas que com o tempo passou a sentir que algo faltava. “Eu tive uma criação cristã e sou grato por isso. Aprendi muito, inclusive na música. Mas eu tinha fenômenos mediúnicos desde criança que não encontravam explicação dentro da doutrina evangélica”, relata. A busca por respostas o levou ao universo das religiões de matriz africana, mesmo com receio inicial. “Durante muito tempo nos ensinaram que Exu era o demônio. Colocaram medo. Mas esse medo é construído justamente para afastar as pessoas das nossas raízes.”

Ao descobrir a Umbanda e o Candomblé, Jhobert também encontrou acolhimento em relação à sua identidade como homem LGBTQIAPN+. “A maioria das igrejas evangélicas não nos acolhe. Eu fui me sentindo cada vez mais fora do meu lugar. E quando cheguei no terreiro, foi como voltar pra casa. Tive um sonho que me mostrou isso. Uma entidade disse: ‘Guardei esse lugar pra você todos esses anos’. A partir dali, tudo fez sentido”, conta.

Promotor cultural em Araxá e seguidor da Umbanda e Candomblé em Araxá. Foto: Alex Xexéu

Entre os elementos que mais o encantaram na religião, Jhobert destaca o som dos tambores e a conexão com as entidades. “O toque do tambor te transporta pro berço da ancestralidade. É algo que toca a alma. E a Pombogira foi a entidade que mais me tocou. Ela desperta a essência feminina, mas também a força interior, a arte, a comunicação... É uma entidade de empoderamento.”

Sobre os dados do IBGE, Jhobert reforça que a crescente aceitação está ligada à informação. “As pessoas estão pesquisando mais, estudando mais. E estão vendo que não somos aquilo que disseram. Não cultuamos o diabo, e os sacrifícios que existem nas nossas tradições são rituais sagrados, bem diferentes do que costumam espalhar por preconceito.. Isso é fruto de racismo religioso, de desinformação. E isso está mudando.”

Jhobert Rodrigues participa de diversos movimentos que lutam e divulgam os coletivos culturais por reqconhecimento da cultura afro-brasilera. Foto: Alex Xexéu

Ele também destaca que as religiões de matriz africana têm ganhado espaço em políticas culturais em Araxá. “Hoje temos o cadastro de agentes culturais na Fundação Cultural Calmon Barreto, em parceria com o Conselho de Políticas Culturais. Isso inclui sacerdotes, mestres de saberes populares, congadeiros, capoeiristas... É uma forma de garantir que tenhamos acesso a editais como a Lei Aldir Blanc, Paulo Gustavo e outras.”

Para Jhobert, a mudança virá com o conhecimento. “Se você tem uma dúvida, estude. Se ouviu algo negativo, vá buscar a verdade. Vá conhecer um terreiro. O preconceito nasce da ignorância. E a única forma de combater isso é se permitindo conhecer.”

As sessões de Umbanda que Jhobert participa ocorrem quinzenalmente aos domingos, às 17h, na Rua dos Hibiscos, nº 280, bairro Parque das Flores. “É um espaço aberto para acolher, orientar e fortalecer. A espiritualidade não deve excluir. Ela deve libertar.”