Docente alerta para a defasagem na formação básica, o mau uso da inteligência artificial e a falta de propósito entre os jovens no mercado de trabalho
Durante participação no programa Conexão Imbiara Economia e Negócios desta quinta-feira (6), o professor e consultor empresarial Fernando Gonçalves, coordenador dos cursos de Administração e Ciências Contábeis do Centro Universitário do Planalto de Araxá (Uniaraxá), abordou temas como organização pessoal, gestão de pessoas, desafios da educação e mortalidade das empresas no país.
Aos 36 anos, com formação em Administração e Ciências Contábeis, MBA em Gestão de Recursos Humanos e mestrado em Administração, Fernando atua há 12 anos na área educacional e há 19 no mercado de trabalho. Ele também é consultor empresarial e presta apoio em um escritório de contabilidade.
Logo no início da entrevista, Fernando destacou a importância da disciplina e do planejamento pessoal para equilibrar as múltiplas atividades entre docência, coordenação e consultoria.
“Agenda é fundamental. Não tem jeito de ficar sem. Eu organizo toda a semana e deixo uma margem de flexibilidade, porque sempre aparecem imprevistos. A ideia é seguir 80% da programação e ter 20% de folga para não se frustrar e manter a qualidade nas entregas”, explicou.
Desafios na gestão de pessoas
Com ampla atuação na área de Recursos Humanos, o professor ressaltou que um dos principais desafios das empresas hoje é atrair e reter talentos.
“Os empresários reclamam da falta de mão de obra qualificada, mas muitas vezes também não criam ambientes favoráveis para o engajamento das pessoas. É uma via de mão dupla: falta qualificação, mas falta também estrutura e valorização por parte das empresas”, pontuou.
Fernando acrescentou que o departamento de RH ainda é subestimado em muitas organizações.
“Trabalhar com pessoas é como plantar eucalipto: exige tempo e paciência. Com gente, o resultado não aparece de um mês para o outro. E muitos empresários não entendem isso”, comparou.
Ele também comentou sobre a dificuldade de comunicação interna nas empresas, destacando que poucos gestores têm o hábito de realizar feedbacks e avaliações de desempenho de forma construtiva.
“Muitos colaboradores trabalham sem entender o propósito do que fazem. Essa falta de sentido é um problema, especialmente para as novas gerações, que querem entender o ‘porquê’ do trabalho”, afirmou.
Educação e o comportamento das novas gerações
Ao abordar o cenário educacional, Fernando lamentou a defasagem na formação básica e a superficialidade com que muitos estudantes lidam com o conhecimento.
“Hoje, o aluno chega à faculdade precisando de nivelamento em português e matemática. Além disso, muitos estão mais atentos às redes sociais do que aos temas que realmente importam para sua formação”, comentou.
Ele exemplificou com um episódio em sala de aula. “Durante uma explicação sobre finanças, um aluno interrompeu para comentar a separação de influenciadores. No dia seguinte, houve reunião do Copom sobre a taxa Selic — ninguém mencionou o assunto”, contou.
Outro ponto destacado foi o uso indevido da inteligência artificial. “O aluno joga o trabalho no ChatGPT e entrega o texto pronto. Mas quando você pergunta o significado de uma palavra do próprio texto, ele não sabe responder. A tecnologia pode ajudar, mas não pode substituir o raciocínio e o aprendizado”, observou.
Apesar dos desafios, o professor também reconheceu avanços. “Os alunos de hoje têm mais acesso à informação e questionam mais. Se o professor não estiver atualizado, eles percebem rapidamente. Isso nos obriga a estarmos sempre preparados”, afirmou.

Fernando Gonçalves com os apresentadores Carlos Nunes e Silvio Gonçalves. Foto: Caio César/Portal Imbiara
Planejamento: o que falta às empresas brasileiras
Fernando também analisou os dados do Sebrae sobre a alta mortalidade das pequenas e médias empresas no Brasil. “Quase 30% não passam dos dois anos, e mais de 50% fecham antes de completar cinco. O principal motivo é a falta de planejamento financeiro e de conhecimento em gestão”, explicou.
Ele observou que muitos empreendedores abrem negócios por necessidade, sem preparo. “Saber fazer um produto ou prestar um serviço não é o mesmo que saber administrar uma empresa. É preciso conhecer gestão, planejamento, mercado e pessoas. Sem isso, o risco de fracasso é enorme”, alertou.
Da teoria à prática: valores que constroem resultados
Ao final da entrevista, o professor reforçou a importância de aplicar os conceitos aprendidos na faculdade à realidade das empresas.
“Muitas empresas exibem missão, visão e valores na parede, mas não vivenciam isso no dia a dia. Esses princípios são estratégicos e devem orientar decisões, comportamento e cultura organizacional”, afirmou.
Fernando destacou ainda que teoria e prática caminham juntas.
“A teoria fundamenta as decisões práticas. O segredo é adaptar o que a literatura traz para o seu cenário, aplicando o que faz sentido para o seu negócio”, concluiu.