BEM BRASIL
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Postado em: 09/11/2025 - 13:21 Última atualização: 09/11/2025
Por: Alex Sander Xexéu - Portal Imbiara

Natural de Ibiá, Ana Maria Gonçalves assume cadeira na Academia Brasileira de Letras

Autora de Um defeito de cor se torna a primeira mulher negra entre os imortais da ABL

Ana Maria Gonçalves é natural de Ibiá. Foto: Agência Brasil

Benção, mãe. Benção, pai.” — com essa saudação carregada de emoção e ancestralidade, a escritora Ana Maria Gonçalves, natural de Ibiá (MG), iniciou seu discurso de posse na cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), na noite desta sexta-feira (7), no Rio de Janeiro.

Autora do aclamado romance histórico Um defeito de cor, Ana Maria tornou-se a 13ª mulher e a primeira mulher negra a integrar o quadro de imortais da Academia, fundada em 1897. Em um discurso comovente, ela celebrou a conquista dedicando-a à memória de quem veio antes e à luta por uma literatura mais inclusiva.

“Agradeço, por fim, à minha ancestralidade, fonte inesgotável de conforto, fé, paciência e sabedoria”, afirmou.


Legado e representatividade

Ana Maria relembrou os antigos ocupantes da cadeira 33 — o fundador Domício da Gama e o linguista Evanildo Bechara —, exaltando o legado de ambos. Também resgatou o histórico de exclusão feminina na ABL, mencionando o veto à candidatura de Amélia Beviláqua, em 1930.

“A não admissão de mulheres foi inicialmente um acordo entre cavalheiros, já que não havia nada impeditivo no estatuto”, destacou.

A escritora citou ainda as pioneiras que abriram caminho para sua chegada, como Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Maria Machado, Fernanda Montenegro, Rosiska Darcy de Oliveira, Lilia Schwarcz e Miriam Leitão.

“Ainda somos poucas para tanto trabalho de reconstrução do imaginário sobre o que representamos”, afirmou.


Ana Maria Gonçalves, ao centro, ladeada por outras imortais: Fernanda Montenegro, Rosiska Darcy e Miriam Leitão. Foto: ABL/ Dani Paiva.

Voz negra na ABL

Com emoção, Ana Maria falou sobre a presença negra na Academia, lembrando que por muito tempo Domício Proença Filho foi o único negro entre os imortais e que “a negritude de Machado de Assis lhe foi negada por décadas”.

“Cá estou eu, 128 anos depois de sua fundação, como a primeira escritora negra eleita para a Academia Brasileira de Letras. Assumo como missão promover a diversidade nesta Casa e abrir suas portas ao público — verdadeiro dono da língua.”

Ana Maria também reconheceu a importância das candidaturas de Conceição Evaristo e Ailton Krenak, que ampliaram o debate sobre diversidade dentro da instituição.


Uma noite histórica

A cerimônia contou com a presença de nomes importantes da cultura brasileira. A historiadora Lilia Schwarcz apresentou a nova imortal, destacando o impacto de Um defeito de cor. Gilberto Gil entregou o diploma, e Ana Maria Machado o colar acadêmico.

Gil exaltou a conquista:

“Ana Maria é uma das grandes artesãs da palavra. Sua escrita traz uma consciência profunda sobre o que é ser negro no Brasil. Ela representa o papel que os negros têm no processo civilizatório brasileiro.”

A também acadêmica Miriam Leitão ressaltou o simbolismo da posse:

“A entrada dela tem uma camada de representatividade fundamental. Ela traz a força da mulher e da literatura negra para dentro desta Casa. É um dia histórico.”


“A conquista de todas nós”

Ovacionada por Ana Maria durante o discurso, Conceição Evaristo definiu a posse como uma vitória coletiva:

“A conquista de Ana é a conquista de todas nós, mulheres negras e escritoras. É como se estivéssemos todas dentro da Academia hoje.”

O ator e escritor Lázaro Ramos também celebrou o momento:

“É uma noite de celebração e justiça literária. A presença dela na ABL representa o amadurecimento do país.”

Após a solenidade, os convidados participaram de um jantar inspirado em Um defeito de cor, preparado pela chef Dilma do Nascimento (Dita), com pratos que homenageiam a ancestralidade africana.

“Foi um prazer trazer essa história também pela comida”, disse a chef, emocionada.


Com a posse de Ana Maria Gonçalves, filha de Ibiá e autora de uma das obras mais importantes da literatura contemporânea, a Academia Brasileira de Letras vive um marco histórico — um passo em direção à diversidade, representatividade e valorização das múltiplas vozes que constroem o Brasil.