Entrevista reuniu profissionais da área de estética e nutrição para discutir hábitos alimentares, atividade física, autoestima e os desafios do envelhecimento com qualidade de vida
Envelhecer com saúde não significa apenas acompanhar o peso na balança ou buscar mudanças na aparência. A manutenção da massa muscular, a alimentação equilibrada, a prática de atividade física e o cuidado com a saúde emocional também fazem parte de uma rotina que pode contribuir para mais autonomia e qualidade de vida. Esses temas foram discutidos nesta quarta-feira (21), em entrevista ao programa Vida Ativa 60+, da Rádio Imbiara FM, em Araxá.
Participaram da conversa a coordenadora de pós-estética da Magras, Mikaela Hain, e a nutricionista Isabela Costa. Ao longo do programa, as profissionais abordaram questões que vão desde a dificuldade de mudar hábitos alimentares até a perda de massa muscular durante o envelhecimento, passando pela importância do autocuidado e da avaliação individual antes da adoção de qualquer tratamento.
Mikaela, que atua há oito anos na área, destacou que a procura por cuidados estéticos e de saúde não está necessariamente ligada apenas ao desejo de emagrecer. Segundo ela, muitas pessoas chegam ao atendimento depois de anos priorizando família, trabalho e outras responsabilidades. “Já cuidei da família, dos filhos, já cuidei da minha casa, já aposentei, né? Agora eu quero cuidar de mim.”
A percepção de que o cuidado pessoal também faz parte de uma vida saudável foi um dos pontos centrais da entrevista. Para as profissionais, o envelhecimento não deve ser tratado como uma fase em que a pessoa deixa de estabelecer novos objetivos, mas como um período em que hábitos podem ser revistos e adaptados às necessidades individuais.
Alimentação sem radicalismo
Na área de nutrição, Isabela Costa defendeu uma abordagem menos baseada em restrições e mais concentrada na qualidade das escolhas. Durante a entrevista, ela contou que costuma perceber resistência de pacientes que chegam ao consultório imaginando que uma consulta nutricional significará abandonar alimentos de que gostam.
A proposta apresentada é justamente o contrário: adaptar a alimentação à realidade de cada pessoa. “Você não precisa deixar de comer para comer bem. Eu sempre falo que o básico funciona.”
Entre os alimentos citados pela nutricionista estão arroz, feijão, verduras, legumes e fontes de proteína. A orientação está alinhada ao Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que recomenda que a alimentação tenha como base alimentos in natura ou minimamente processados e orienta a redução do consumo de ultraprocessados.
Para pessoas idosas, o próprio Ministério da Saúde reforça que a alimentação deve considerar as mudanças fisiológicas e metabólicas próprias do envelhecimento, priorizando alimentos como frutas, legumes, ovos, carnes e outros alimentos in natura ou minimamente processados.
A entrevista também abordou uma dúvida comum: o consumo de doces. Isabela explicou que não considera necessário eliminar completamente esse tipo de alimento, desde que exista equilíbrio. Segundo ela, o consumo excessivo pode estar relacionado a diferentes fatores e, em alguns casos, a investigação nutricional e clínica pode ser necessária. “Eu não falo que o doce é um vilão, mas ao mesmo tempo ele é um vilão. Tudo em excesso faz mal.”
A nutricionista também chamou atenção para a importância de observar possíveis alterações metabólicas quando existe uma vontade muito intensa e frequente de comer doces. A recomendação, nesse caso, é investigar as causas em vez de simplesmente atribuir o comportamento à falta de disciplina.
Menos ultraprocessados e mais comida de verdade
Outro assunto discutido foi a escolha entre versões tradicionais, diet, light ou zero açúcar de determinados produtos. Isabela orientou que o consumidor observe a lista de ingredientes antes de decidir.
A recomendação coincide com a orientação do Ministério da Saúde de priorizar alimentos in natura e minimamente processados. O Guia Alimentar destaca que produtos ultraprocessados geralmente apresentam grande quantidade de ingredientes e aditivos e podem ter composição nutricional desbalanceada.
Durante a conversa, alimentos como macarrão instantâneo, embutidos, biscoitos, pizzas congeladas e outros produtos industrializados foram citados como exemplos de itens que devem ter consumo limitado. A nutricionista, entretanto, ressaltou que praticidade também precisa ser considerada na vida real, especialmente para quem trabalha ou não consegue preparar todas as refeições diariamente.
A orientação, nesse caso, é recorrer preferencialmente a preparações caseiras e alimentos menos processados sempre que possível. O próprio Ministério da Saúde classifica arroz e feijão, por exemplo, entre os alimentos minimamente processados e recomenda que eles façam parte de uma alimentação baseada em alimentos frescos e preparações culinárias.
Massa muscular é um dos pontos de atenção no envelhecimento
A entrevista também trouxe para o centro da discussão um tema importante para a população acima dos 60 anos: a perda de massa muscular, conhecida como sarcopenia.
Segundo Isabela, a redução da musculatura pode comprometer força, equilíbrio e autonomia. O assunto ganhou espaço quando as profissionais explicaram que uma pessoa pode apresentar excesso de gordura corporal e, ao mesmo tempo, baixa quantidade de massa muscular — combinação associada ao conceito de obesidade sarcopênica.
A preocupação é relevante porque a perda de força pode aumentar a dificuldade para realizar atividades cotidianas e contribuir para maior risco de quedas. Por isso, o cuidado com o peso não deve ser analisado isoladamente. “A gente precisa movimentar o corpo, a gente precisa desenvolver essa massa muscular.”
A recomendação também encontra respaldo nas orientações da Organização Mundial da Saúde. Para pessoas com 65 anos ou mais, a OMS recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada, ou 75 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Para quem apresenta mobilidade reduzida, atividades voltadas ao equilíbrio e à prevenção de quedas devem ser realizadas em três ou mais dias da semana.
A orientação internacional também ressalta que alguma atividade física é melhor do que nenhuma e que pessoas sedentárias podem começar com pequenas quantidades e aumentar gradualmente a duração e a intensidade.
Caminhada e movimento como ponto de partida
Ao falar sobre pacientes que afirmam não ter tempo ou condições para frequentar uma academia, Isabela defendeu que o início pode ser simples. Caminhadas curtas e atividades realizadas em espaços públicos podem representar uma primeira mudança de rotina. “Chegou na consulta, eu falo, vamos fazer pelo menos uma caminhada. Não consegue sair de casa, não tem tempo. Mas pega ali 15 minutinhos do seu dia.”
A recomendação de começar aos poucos é compatível com as diretrizes da OMS, embora a quantidade ideal de atividade varie conforme idade, condição física, mobilidade e estado de saúde. A instituição recomenda progressão gradual para quem ainda não alcança os níveis indicados.
Para o público 60+, o fortalecimento muscular ganha importância adicional. Mais do que uma questão estética, preservar força e equilíbrio está relacionado à capacidade de realizar tarefas do cotidiano e manter independência.
Autocuidado também envolve saúde emocional
A história pessoal de Isabela também marcou a entrevista. Ela contou que decidiu cursar Nutrição influenciada pela experiência da própria família com a obesidade e pelo sofrimento enfrentado por uma tia, que morreu em 2019, poucos meses depois de ela iniciar a faculdade.
O período de luto quase fez com que ela abandonasse o curso. Com acompanhamento terapêutico, porém, Isabela encontrou uma nova motivação para continuar a formação e transformar a experiência familiar em uma forma de ajudar outras pessoas. “Eu não quero que os familiares dos meus pacientes, e muito menos os meus pacientes, passem o que a minha tia enfrentou.”
A experiência, segundo ela, também influencia a forma como conduz os atendimentos. Antes de estabelecer metas alimentares, a profissional considera importante compreender a realidade, as dificuldades e a relação que cada paciente mantém com a comida.
Essa abordagem reforça um aspecto que atravessou toda a entrevista: mudanças de comportamento dificilmente acontecem de forma isolada. Alimentação, atividade física, autoestima e saúde emocional podem estar interligadas e precisam ser avaliadas de acordo com a realidade de cada pessoa.
Avaliação individual antes dos tratamentos
Na parte estética, Mikaela explicou que a clínica utiliza avaliação corporal antes da indicação de protocolos. Entre os recursos mencionados está a bioimpedância, utilizada para avaliar diferentes componentes da composição corporal.
A profissional destacou que idade, quantidade de massa muscular, gordura corporal e flacidez podem variar significativamente entre indivíduos. Por isso, a mesma estratégia não deve ser automaticamente aplicada a todas as pessoas. “Cada pessoa é única. Cada pessoa tem um tipo de estrutura corporal. Cada pessoa tem um tipo de gordura.”
Entre os tratamentos apresentados durante o programa estão procedimentos voltados à gordura localizada, flacidez, fortalecimento muscular, cuidados faciais e tratamentos capilares. A equipe também apresentou novidades, como a criolipólise de placa e o protocolo M-Hair, voltado à saúde capilar.
Nesse ponto, a entrevista também serviu para reforçar a importância de avaliação profissional antes de qualquer procedimento. Tratamentos estéticos não substituem alimentação adequada, atividade física ou acompanhamento médico quando houver uma condição de saúde.
Um novo olhar para a terceira idade
Ao longo do programa, os participantes defenderam que o cuidado com o corpo não deve ser associado exclusivamente à juventude. A chamada geração 60+ foi apresentada como um público que pode continuar estabelecendo projetos, cuidando da aparência, praticando atividades físicas e buscando novas formas de viver com autonomia.
Para Mikaela, o autocuidado não deveria ser visto como algo secundário diante das responsabilidades familiares. “Quando a gente fala em autoestima, não tem idade, né? E é muito importante dar esse passo inicial para o autocuidado.”
A mensagem encontra respaldo em recomendações de saúde pública que tratam o envelhecimento ativo como um processo que envolve participação social, autonomia, saúde física e bem-estar. Nesse contexto, alimentação equilibrada e movimento corporal deixam de ser apenas ferramentas para controle de peso e passam a integrar uma estratégia mais ampla de preservação da independência.
Em Araxá, o debate apresentado pelo Vida Ativa 60+ reforça uma mudança de perspectiva: cuidar da saúde depois dos 60 não significa simplesmente combater os efeitos da idade, mas criar condições para continuar vivendo com disposição, mobilidade e participação na comunidade.
Mais do que buscar uma transformação rápida, a principal mensagem deixada pelas profissionais foi a necessidade de construir hábitos sustentáveis e compatíveis com a realidade de cada pessoa. Como resumiu Isabela durante a entrevista, o cuidado pode começar com uma escolha simples — e não precisa esperar uma doença ou uma limitação aparecer para começar.