Valorizar os professores é investir no futuro do nosso país
A pedagogia e o magistério estão entre os pilares fundamentais para a transformação social, econômica e cultural de um país, porque a educação amplia oportunidades, combate desigualdades e prepara cidadãos para participar conscientemente da vida democrática. Muito além de transmitir conteúdos, o professor desenvolve o pensamento crítico, estimula a criatividade, promove a autonomia e contribui para que crianças e jovens construam projetos de vida com dignidade. Por isso, reconhecer a importância dos educadores significa compreender que o desenvolvimento de uma nação não depende apenas de suas riquezas naturais, de sua capacidade industrial ou de seus recursos financeiros, mas também da qualidade do conhecimento que consegue produzir e compartilhar.
A experiência internacional demonstra que a educação de qualidade pode contribuir decisivamente para a formação de sociedades mais produtivas e inovadoras. Informações registradas no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes de 2022, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, indicam que Singapura alcançou 575 pontos em Matemática, 543 em Leitura e 561 em Ciências, resultados que a colocaram entre os sistemas educacionais de melhor desempenho mundial. Estônia, Japão e Coreia do Sul também se destacaram em diferentes áreas, mostrando que políticas consistentes de aprendizagem, formação docente e desenvolvimento de competências podem ajudar a construir economias mais competitivas, embora o sucesso desses países também dependa de fatores institucionais, sociais e econômicos.
No Brasil, entretanto, ainda existe uma distância significativa entre o reconhecimento retórico da educação e a valorização concreta dos profissionais responsáveis por ela. Segundo os dados consolidados no Anuário Brasileiro da Educação Básica - 2025, elaborado pelo movimento “Todos Pela Educação”, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, o rendimento bruto médio mensal dos profissionais do magistério da rede pública de Educação Básica, com ensino superior completo, chegou a R$ 5.481,01 em 2024, diante de R$ 6.368,97 recebidos, em média, pelos demais profissionais assalariados com a mesma escolaridade. Isso significa que a remuneração docente correspondia a aproximadamente 86,1% da média dos outros trabalhadores comparáveis, uma melhora em relação aos 70,5% registrados em 2014, mas ainda insuficiente para assegurar plena equiparação profissional.
Educação Básica 2026
A valorização não se resume ao salário, embora a remuneração justa seja indispensável para atrair e manter bons profissionais, reduzir a necessidade de múltiplos vínculos e permitir tempo para planejamento, atualização e aperfeiçoamento pedagógico. Conforme dados resultantes da TALIS — Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning International Survey), pesquisa coordenada pela OCDE em 2024, apenas 14% dos professores brasileiros consultados concordaram que a profissão é valorizada pela sociedade, percentual inferior à média de 22% observada entre os participantes, enquanto somente 22% declararam satisfação com seus salários, diante de 39% na média internacional. O levantamento também identificou que 64% dos professores brasileiros tinham contrato permanente, abaixo dos 81% registrados na média da OCDE, indicando que a segurança profissional e as condições de trabalho precisam integrar qualquer política séria de valorização do magistério.
Outro sinal de alerta está na formação dos futuros educadores e na capacidade do país de atrair novos talentos para as salas de aula. Os dados do Anuário 2025 apontam que, entre 2014 e 2024, as matrículas em cursos superiores voltados à docência nas instituições privadas presenciais caíram de aproximadamente 421 mil para 104 mil, enquanto as matrículas na modalidade privada a distância cresceram de cerca de 440 mil para 1,06 milhão, evidenciando uma profunda mudança no perfil da formação inicial. Na pesquisa TALIS 2024, 58% dos professores brasileiros iniciantes afirmaram que o magistério foi sua primeira escolha profissional, proporção semelhante à média internacional, mas esse dado, por si só, não permite concluir que os jovens em geral estejam mais interessados na carreira, sobretudo diante dos desafios salariais, da sobrecarga de trabalho e da percepção de baixo reconhecimento social.
O cenário para as próximas décadas dependerá, portanto, das decisões tomadas hoje por governos, instituições de ensino, famílias e sociedade. Se nosso país ampliar o investimento eficiente na educação básica, fortalecer a formação pedagógica, assegurar planos de carreira atrativos, melhorar a infraestrutura escolar e oferecer condições dignas de trabalho, poderá formar gerações mais preparadas para a ciência, a tecnologia, o empreendedorismo e os desafios de uma economia em constante transformação. Caso contrário, a dificuldade de atrair e manter professores qualificados poderá aprofundar desigualdades, limitar a mobilidade social e comprometer a capacidade nacional de inovar, competir internacionalmente e garantir oportunidades às futuras gerações.
Em última análise, no Brasil a educação não deve ser tratada como despesa secundária, mas como investimento estratégico na emancipação humana e no desenvolvimento sustentável. Valorizar a pedagogia significa reconhecer que ensinar exige conhecimento científico, domínio de métodos, sensibilidade social e compromisso permanente com a aprendizagem, enquanto valorizar o professor significa oferecer remuneração adequada, formação continuada, respeito profissional e condições reais para exercer sua missão. O país que desejamos construir nas próximas décadas começa na sala de aula de hoje: cada professor valorizado, cada criança alfabetizada e cada jovem com acesso ao conhecimento representam um passo concreto rumo a uma nação mais justa, próspera, democrática e independente.