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Postado em: 13/06/2026 - 08:44 Última atualização: 13/06/2026 - 08:45
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Herança afetiva do futebol, na vida de um torcedor brasileiro

por Rogério Farah

Paixão nacional, a Seleção Brasileira de Futebol, considerada como a Pátria de Chuteiras, escreveu capítulos inesquecíveis na história de várias pessoas. Entre elas, encontra-se este articulista, que teve o privilégio de possuir uma lembrança que transcende o esporte e alcança o campo da memória afetiva. Em uma fotografia registrada no segundo semestre de 1964, ainda bebê, apareço ao lado de Pelé, o eterno Rei do Futebol, eleito pela FIFA como o Atleta do Século e reconhecido mundialmente como o maior jogador de todos os tempos.

O que mais impressiona naquela imagem não são os títulos já conquistados por Pelé, mas sua extraordinária simplicidade. Mesmo sendo bicampeão mundial pela Seleção Brasileira e protagonista das glórias do Santos Futebol Clube, naquela altura também bicampeão mundial de clubes, ele demonstrava uma disponibilidade rara, tratando as pessoas comuns com atenção, empatia e respeito. Aquela cena congelada no tempo acabou se transformando em uma espécie de símbolo dos valores humanos que o futebol também foi capaz de transmitir a gerações inteiras.

Poucos anos depois, chegaria outro momento inesquecível para milhões de brasileiros: a Copa do Mundo FIFA de 1970. Pela primeira vez, a decisão do torneio foi transmitida ao vivo para grande parte do público brasileiro, ampliando ainda mais o encantamento das crianças daquela época pelo esporte. A magia daquele time extraordinário, liderado por Pelé, Carlos Alberto, Jairzinho, Gérson, Tostão e Rivellino, ajudou a consolidar uma paixão que acompanharia muitos torcedores durante toda a vida.

A partir dali, vieram outras quatorze edições da competição, alimentando sonhos, esperanças e recordações que atravessaram gerações. Este autor acompanhou as Copas do Mundo da Copa do Mundo FIFA de 1974 (Alemanha Ocidental), Copa do Mundo FIFA de 1978 (Argentina), Copa do Mundo FIFA de 1982 (Espanha), Copa do Mundo FIFA de 1986 (México), Copa do Mundo FIFA de 1990 (Itália), Copa do Mundo FIFA de 1994 (Estados Unidos), Copa do Mundo FIFA de 1998 (França), Copa do Mundo FIFA de 2002 (Coreia do Sul e Japão), Copa do Mundo FIFA de 2006 (Alemanha), Copa do Mundo FIFA de 2010 (África do Sul), Copa do Mundo FIFA de 2014 (Brasil), Copa do Mundo FIFA de 2018 (Rússia) e Copa do Mundo FIFA de 2022 (Catar), somando quatorze edições vivenciadas desde a inesquecível conquista de 1970. Cada torneio acrescentou novos heróis, frustrações, alegrias e histórias, compondo uma verdadeira herança afetiva compartilhada por milhões de brasileiros apaixonados pelo futebol.

Entretanto, ao longo dos anos, surgiu uma sensação difícil de ignorar. Enquanto os jogadores passaram a receber salários cada vez mais elevados, transformando-se em celebridades globais e acumulando fortunas inimagináveis para gerações anteriores, os resultados esportivos raramente corresponderam às expectativas da torcida. As exceções ficaram por conta dos títulos conquistados nas Copas de 1994 e 2002, além do vice-campeonato de 1998, pois as demais campanhas frequentemente terminaram cercadas por decepções e promessas não cumpridas.

Hoje, chegamos à vigésima terceira edição da Copa do Mundo de Seleções, marcada pela ampliação para 48 países participantes. Ao observar a atual Seleção Brasileira, muitos torcedores mais antigos têm a impressão de estar diante de uma equipe distante da identidade popular que durante décadas caracterizou a camisa amarela. A presença de atletas formados quase integralmente no exterior e até mesmo de um treinador estrangeiro alimenta a percepção de que a equipe se assemelha mais a uma legião estrangeira do que à representação espontânea do povo brasileiro.

Talvez seja justamente por isso que a fotografia ao lado de Pelé conserve um significado tão especial. Ela remete a um tempo em que o futebol parecia mais próximo das ruas, dos campinhos de terra, das famílias reunidas diante da televisão e dos sonhos compartilhados por crianças de todas as classes sociais. Independentemente dos resultados futuros, essa herança afetiva permanece viva na memória de quem aprendeu a amar o futebol quando a Seleção Brasileira ainda era percebida não apenas como uma equipe vencedora, mas como uma legítima expressão da alma do Brasil, aquela mesma que insiste em torcer novamente e quem sabe vibrar mais uma vez...

 

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