por Rogério Farah
Legalmente, apenas se cometermos algum delito grave, que justifique a perda do pátrio poder, mas emocionalmente pode ocorrer uma “adoção” indireta e incompleta, mas também preocupante, pois é possível que nossas “crias” sejam seduzidas por terceiros, que prestem a eles a atenção que eventualmente não demos. E talvez seja justamente essa a reflexão mais dolorosa para pais e mães dos tempos atuais: ninguém toma juridicamente o lugar da família por acaso, mas afetivamente alguns espaços podem, sim, ser ocupados silenciosamente. Não porque falte amor dentro de casa, mas porque muitas vezes falta presença verdadeira, escuta paciente e convivência sincera.
Na clássica obra Meu Pé de Laranja-Lima, o pequeno Zezé encontrou no “Portuga” aquilo que desejava receber dos adultos mais próximos: acolhimento, atenção e compreensão. O personagem não roubou o afeto da família, mas acabou preenchendo vazios emocionais que já existiam. E talvez seja exatamente por isso que a história continue tão atual e tão incômoda, mesmo décadas depois de sua publicação.
Vivemos numa época em que pais trabalham mais, correm mais e se angustiam mais, acreditando que proteger os filhos significa apenas garantir conforto material, boa escola e segurança física. Porém, crianças e adolescentes também têm fome de conversa, de olho no olho, de abraço sem pressa e de participação genuína na vida cotidiana. Quando isso não acontece, alguém poderá surgir oferecendo exatamente aquilo que faltou dentro de casa: tempo, validação emocional e sensação de pertencimento.
Essa “adoção afetiva” pode ocorrer através de amigos, influenciadores digitais, líderes religiosos, professores, parceiros amorosos precoces ou até desconhecidos presentes nas redes sociais. Muitas dessas relações são positivas e ajudam no amadurecimento emocional, mas outras podem se transformar em vínculos de dependência emocional, manipulação ou afastamento familiar. O perigo começa quando os pais deixam de ser referência emocional e passam a ser apenas financiadores da rotina doméstica.
Talvez o maior erro contemporâneo seja imaginar que autoridade substitui convivência. Filhos raramente se afastam apenas porque ouviram um “não”; geralmente se afastam porque deixaram de se sentir vistos, compreendidos ou importantes dentro do próprio lar. Crianças crescem rápido, mas carências emocionais também crescem — e frequentemente encontram abrigo em qualquer pessoa disposta a ouvir aquilo que os pais, por cansaço ou distração, deixaram de perceber.
É evidente que nenhuma família é perfeita e que todo pai ou mãe carrega culpas silenciosas, limitações e dias difíceis. Ainda assim, o afeto cotidiano continua sendo uma espécie de vacina emocional poderosa contra influências destrutivas e relações abusivas. Não se trata de vigiar os filhos o tempo inteiro, mas de permanecer emocionalmente disponível para que eles nunca precisem procurar desesperadamente fora de casa o colo que deveria existir dentro dela.
No fundo, a provocação do título talvez não fale sobre perda legal de filhos, mas sobre perda emocional gradual. Há pais que continuam morando sob o mesmo teto e, ainda assim, já não conhecem os medos, os sonhos ou as dores dos próprios filhos. E quando isso acontece, algum “Portuga” poderá surgir no caminho — não para substituir juridicamente uma família, mas para ocupar um espaço afetivo que jamais deveria ter ficado vazio.