por Rogério Farah

Há um antigo adágio popular, ainda em latim, que afirma: "Vox Populi, Vox Dei" (A voz do povo é a voz de Deus), com objetivo de destacar a importância da cidadania, da consulta às opiniões da população, quando mudanças são propostas nas diretrizes da gestão, por parte das administrações públicas. Porém, salvo em épocas eleitorais, quando o povo é assediado por candidatos, prometendo mil e uma maravilhas, a mesma distinção não ocorre normalmente em outras tantas oportunidades, no cotidiano habitual, em que os então "salvadores da pátria", investidos como garantidores dos direitos e fiscais dos bens públicos, adotam a omissão, na ausência da escuta ativa dos clamores das parcelas da comunidade, mormente as mais vulneráveis. A democracia não se fortalece apenas pelo voto depositado na urna, mas pela capacidade permanente de ouvir, dialogar e transformar reivindicações legítimas em políticas públicas responsáveis.
A política contemporânea padece de uma ilusão geográfica e moral devastadora. Para o agente político, “estar em casa” carrega um arrogante sentido de posse, onde o território e a população são tratados como propriedades sob seu domínio temporário. Já o “ser de casa” expressa o oposto: uma sensação pura de pertencimento e empatia visceral com a sociedade que o elegeu.
Quando esse vínculo de representação autêntica se rompe, o contrato social perde sua validade. Se o mandatário decide se omitir da função básica de dar voz e proteger seus eleitores, a resposta popular surge como um espelho inevitável. O cidadão descontente não hesita em reavaliar seu voto, outorgado à quem abandonou a função de representar.
O abismo se aprofunda quando o eleito escolhe se curvar aos desmandos do poder instituído, em vez de combatê-los com estoicismo. Ao abandonar as causas populares que antes jurava abraçar no palanque, ele destrói a própria razão de sua existência pública. A confiança, uma vez despedaçada no exercício da política rasa, revela que a promessa eleitoral não passava de um ornamento retórico.
Valores fundamentais da vida civilizada não admitem barganha sob qualquer pretexto. Justiça, democracia e cidadania, quando negociadas em balcões de conveniência, expõem a mais nua falta de caráter do agente político. Não existe realismo político que justifique transformar direitos inalienáveis do povo em moeda de troca.
Nesse cenário de degradação, a omissão premeditada ganha a mesma gravidade do ato nocivo. A ação perniciosa se equipara à omissão criminosa no momento em que o representante se desvia intencionalmente de seus deveres constitucionais. Princípios basilares como a lealdade, a honestidade e a probidade são atropelados por essa postura desidiosa e covarde.
O exercício do poder não pode continuar sendo um passeio impune no terreno das vaidades. Exige-se de qualquer administrador público ou agente político um compromisso inegociável com a justiça social e com a dignidade da sua gente, ou seja, com a Voz do Povo que o elegeu. Quem não se dispõe a carregar esse peso deve, por imperativo moral, admitir que seus ideais foram vencidos e que, indubitavelmente, sua débil atuação na política beira apenas à uma ridícula encenação teatral…