por Rogério Farah
Acessando uma rede social com grande adesão popular, me deparei com o desabafo de uma jovem, que reclamava sobre o isolamento imposto a ela, no ambiente de trabalho, por causa de posicionamentos políticos divergentes. Ela reclamava de perceber uma certa pressão, velada obviamente, dos seus colegas, que as a excluíam em vários momentos do expediente, mormente nas rodas de conversa. Eis aí um gatilho emocional, um instinto ancestral em plena ação: devemos vestir a farda da tribo, para não sermos devorados pela solidão?
A necessidade de pertencimento opera como um maestro invisível, regendo gestos, vocabulários e preferências com uma batuta implacável. Dobramo-nos à maioria não por estupidez, mas pelo pavor silencioso de nos tornarmos os estranhos que ninguém convida para a mesa. De tempos em tempos, é verdade, uma modinha traz uma curiosidade genuína; na maior parte dos dias, porém, é só o medo de não fazer parte do coral.
O problema de adotar um figurino alheio é que o tecido costuma pinicar e a costura cede no primeiro vento forte. Aos poucos, os gostos originais são trancados no sótão da memória em nome de uma aceitação que dura o tempo de um feed de rede social. Quando percebe, o indivíduo virou um eco distante de si mesmo, aplaudindo peças de teatro que acha tenebrosas só para sorrir na foto em grupo.
Sustentar uma personagem que não nos pertence exige um consumo de energia digno de uma usina hidrelétrica. O cansaço emocional chega sem alarde, mascarado por uma ansiedade que sussurra que a qualquer momento a fraude será descoberta. No fim das contas, constroem-se pontes de papelão para ligar pessoas superficiais a afetos que desmoronam na primeira chuva.
A vida em sociedade exige um jogo de cintura constante, mas há uma diferença enorme entre dançar conforme a música e mudar de alma. Experimentar novidades por mera diversão é um tempero saudável da existência, desde que não se entregue a receita inteira. O equilíbrio mora na capacidade de frequentar a festa da moda, sem deixar as próprias chaves na porta de entrada.
Ninguém sai ileso da engenharia social que transforma preferências em crachás de aceitação instantânea. A conta dessa manipulação invisível é sempre individual e chega sob a forma de uma incômoda sensação de vazio. Talvez a única mudança válida seja aquela que nos aproxima, e não a que nos afasta, do espelho.
Em síntese, mudar apenas externamente, renegando sua essência íntima, não é uma opção viável, para a maioria das pessoas. Vale a lembrança que somos pessoas independentes, responsáveis por nossas próprias escolhas. Seja você, não um produto do grupo!