Há ensinamentos que atravessam os séculos porque não dependem da época para fazer sentido. Por exemplo, a passagem bíblica contida no livro de Gálatas, 6:6-10 nos convida a refletir sobre uma relação inevitável entre causa e efeito: aquilo que semeamos, cedo ou tarde, encontra um caminho para retornar à nossa própria existência. Não se trata apenas de uma promessa espiritual, mas de uma advertência profundamente humana sobre as consequências das nossas escolhas.
Quando praticamos o bem, ainda que muitas vezes não recebamos reconhecimento imediato, lançamos sementes capazes de produzir frutos onde talvez nem possamos enxergar. Mas o contrário também é verdadeiro, porque o mal que causamos aos outros contamina nossas entranhas, deixando marcas, deformando valores e acostumando a consciência àquilo que jamais deveria ser considerado normal. A injustiça pode até parecer vantajosa por algum tempo, especialmente quando praticada por quem acredita possuir força, influência ou poder.
É nesse ponto que a reflexão bíblica se torna ainda mais atual: tentar corromper alguém, sob a ameaça de acionar a guilhotina, no comando do poder instituído, é semente que plantamos dentro de nós mesmos e que haveremos de colher seus amargos frutos no tempo certo. Nenhuma posição é eterna, nenhum poder é absoluto e nenhuma autoridade deveria servir como instrumento para alimentar vaidades ou satisfazer interesses pessoais. Quem transforma a força que recebeu em mecanismo de opressão talvez não perceba que, enquanto tenta subjugar os outros, também constrói a própria ruína.
Afinal, a soberba precede a queda, como admoesta o versículo 18, do capítulo 16 de Provérbios, há vários séculos. A arrogância costuma criar uma perigosa ilusão de impunidade, fazendo com que determinadas pessoas imaginem estar acima das consequências de seus atos. Mas a história, a vida e a própria consciência humana demonstram, repetidas vezes, que nenhuma colheita pode ser indefinidamente adiada.
É verdade que cada pessoa escolhe o que fazer com a liberdade que possui, com as oportunidades que recebe e com o poder que eventualmente lhe é confiado. Porém, como diz uma reflexão popular, “cada um tem total liberdade de semear, mas a colheita é obrigatória”, de forma simples e incontornável. Podemos escolher a semente, mas não temos o mesmo poder para impedir que ela produza aquilo que, por sua própria natureza, foi destinada a produzir.
Por isso, enquanto há tempo, talvez devêssemos prestar mais atenção ao que estamos depositando no coração, nas relações e na vida das pessoas que cruzam o nosso caminho. Gálatas nos exorta a não cansarmos de fazer o bem, porque existe um tempo para a colheita, desde que não desfaleçamos diante das dificuldades ou da aparente demora da justiça. E, no fim das contas, cometer injustiça contra alguém é, antes de tudo, começar a semear o mal dentro de si mesmo, o que inegavelmente pode ser uma das maiores lições da vida.