por Rogério Farah
Dizem os antigos que, em algum lugar entre os corredores de um reino imaginário e as vielas onde a verdade costuma andar descalça, existe a Lei do Eterno Retorno, que jamais foi revogada. É aquela velha história, segundo a qual tudo o que fazemos, mais cedo ou mais tarde, encontra o caminho de volta, ainda que percorra estradas tortuosas, atravesse florestas de mentiras e espere pacientemente atrás das cortinas do tempo. E quando isso acontece, talvez seja porque, afinal, de fato “havia algo de podre no Reino da Dinamarca”, parafraseando a imortal peça teatral.
Nesse reino de faz-de-conta, alguns personagens aprenderam a arte de representar, trocando a própria identidade por figurinos cuidadosamente escolhidos conforme a conveniência do momento. No circo da vaidade, palhaços imaginam que são protagonistas dos enredos cinematográficos, enquanto espectadores silenciosos observam a cena e percebem aquilo que os artistas insistem em esconder sob a maquiagem. Afinal, “não se pode servir à dois senhores”, principalmente quando um deles representa a verdade e o outro exige fidelidade absoluta à mentira.
Há personagens, entretanto, que conseguem desempenhar papéis tão convincentes que até poderiam receber uma estatueta dourada em alguma cerimônia de Hollywood, tamanha a perfeição da sua interpretação. Entretanto, é muito difícil realmente acreditar em uma pessoa que oculta a verdadeira face maléfica, usando a máscara de um alegre personagem humilde, apenas e tão somente representando um papel, um roteiro, digno de um folhetim de gosto duvidoso. E talvez seja ainda mais curioso quando alguém “diz seguir ao Príncipe da Paz, mas obedece ao Rei da Mentira”, se encontrando rodeado da asquerosa falsidade dos poderosos, na plenitude da arrogância e totalmente vazio de compaixão.
O problema é que a vida real não possui diretor capaz de ordenar: “corta!”, quando a cena deixa de interessar ao protagonista, tampouco dispõe de roteirista disposto a apagar as consequências de determinadas atitudes. Existem aqueles que, protegidos pela arrogância de seus pequenos impérios, “com seus atos, limpam os pés na boa fé dos humildes”, acreditando que a memória das pessoas seja tão curta quanto conveniente para seus interesses. Enganam-se, porque o tempo pode até parecer distraído, mas possui uma memória extraordinariamente eficiente.
Justamente nesse momento é que a velha sabedoria popular costuma entrar em cena, sem precisar de figurino, maquiagem ou efeitos especiais para confirmar que “quanto mais alto o coqueiro, maior o tombo do côco”, obedecendo a inevitável regra que determina uma consequência para cada causa. Também não convém esquecer que “quem semeia vento, colhe tempestade, jamais esquecendo que a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Talvez alguns personagens imaginem que possam plantar espinhos no caminho alheio e, posteriormente, colher flores para decorar a própria varanda, mas a natureza das coisas costuma ser implacavelmente pedagógica.
Por isso, não há necessidade de pressa, vingança ou torcida pela queda de ninguém; basta deixar o tempo cumprir silenciosamente o seu trabalho. “Um dia o lixo varrido para baixo do tapete invariavelmente há de aparecer”, até porque é impossível esconder eternamente aquilo que alguém decidiu ocultar. E quando as luzes se acenderem, as máscaras começarem a cair e os aplausos diminuírem, talvez alguns descubram que não eram protagonistas coisa alguma, mas apenas personagens passageiros de uma história cujo verdadeiro autor sempre foi o próprio destino.
No final desse conto, talvez o reino continue existindo, os palácios permaneçam de pé e os personagens tentem escrever novos capítulos para suas biografias. Mas existe algo que nenhuma encenação consegue modificar: a verdade pode até caminhar devagar, porém sempre encontra o caminho de volta, e a Lei do Eterno Retorno não costuma aceitar pedidos de adiamento. Porque, no fim das contas, “certo é que o BEM sempre vence” — e talvez essa seja a única sentença desse enredo que não precise de tradução, interpretação ou efeitos especiais.