por Rogério Farah
O segundo domingo de agosto sempre desperta lembranças, gratidão e, inevitavelmente, algumas reflexões. É tempo de homenagear os pais, mas também de reconhecer tantas mulheres que, por circunstâncias da vida, assumiram sozinhas a missão de educar, proteger e amar seus filhos. Por isso, faço questão de estender os parabéns também às chamadas "pães”, esse neologismo popular que traduz, com sensibilidade, a realidade de mães que exercem, ao mesmo tempo, os papéis de pai e de mãe.
Nem todo genitor pode ser considerado um pai, pois a missão paterna é bem mais abrangente. Gerar uma vida é um acontecimento biológico; formar um ser humano é uma construção diária, feita de presença, diálogo, exemplos, limites e afeto. A verdadeira paternidade não se mede pelo sobrenome registrado na certidão de nascimento, mas pelas marcas positivas deixadas no coração dos filhos ao longo da vida.
Guardo com carinho uma lembrança muito pessoal, que ilustra bem essa realidade. Mais de uma vez, durante a adolescência, minha mãe fez o papel do meu pai, tal como na oportunidade que me repassou três livros para esclarecer as mudanças que estavam acontecendo comigo, no corpo e na mente, além de uma outra ocasião, em que me orientou a me barbear melhor, no sentido contrário aos pêlos, para arrematar o serviço. Eram gestos aparentemente simples, mas que revelavam uma preocupação genuína em preparar um filho para os desafios da vida, suprindo, com coragem e amor, uma eventual ausência temporária do meu pai, que ela jamais permitiu transformar-se em verdadeiro abandono emocional.
Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, valoriza excessivamente os presentes materiais, como se eles fossem suficientes para compensar o tempo perdido. No entanto, as crianças raramente se lembrarão do preço do brinquedo recebido, mas guardarão para sempre a memória daquele abraço inesperado, da conversa antes de dormir, da mão estendida nos momentos difíceis e da torcida silenciosa em cada conquista. Afinal, oferecer um bom presente para um filho é acima de tudo se fazer presente na vida dele.
Talvez essa seja a maior crise da família contemporânea. Nunca tivemos tantos recursos tecnológicos para nos comunicar e, paradoxalmente, tão pouco tempo para conversar olhando nos olhos. Há pais que trabalham para oferecer o melhor aos filhos, mas, sem perceber, acabam entregando ao mundo justamente aquilo que eles mais precisavam preservar: sua própria presença.
Aproveito para reverenciar, neste Dia dos Pais, com meu profundo respeito aos homens que fazem por merecer a designação da missão paterna, representados por meu próprio pai, limitado algumas vezes emocionalmente mas sempre presente na atenção, na disciplina e nos cuidados materiais comigo, assim como aos meus próprios filhos, Lorian e Lucian, prestando aos dois aqui uma singela homenagem, justamente por serem extremamente dedicados aos meus netos, Samir e Malu, demonstrando com seus carinhosos atos diários a compreensão que educar é muito mais do que sustentar financeiramente um lar. Minha admiração também se dirige às mães que, por força das circunstâncias, desempenharam sozinhas uma missão dupla, sem perder a ternura, a firmeza e a esperança. A todos eles, pais e "pães", fica aqui registrado o meu reconhecimento por ensinarem, diariamente, que o amor verdadeiro não se limita a palavras ou datas comemorativas, mas se revela na dedicação silenciosa de quem escolhe estar presente, mesmo quando a vida torna essa escolha extraordinariamente difícil.
Feliz dia dos pais, prá todos nós!